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Quem quer amarrar-se pelo Coliseu?

Quem quer amarrar-se pelo Coliseu?

Amarrarmo-nos a alguém é mais fácil do que amarrarmo-nos por alguém. Ou por alguma coisa. Parece só uma ligeira curva semântica mas é uma autoestrada de distância. É a distância que vai do poder simbólico, sem o qual não devemos viver, à responsabilidade pragmática, sem a qual não podemos sobreviver. 25 anos depois da primeira vez, quem quer algemar-se pelo Coliseu?

Menos de 24 horas após a Câmara Municipal do Porto ter tornado pública a intenção de concessionar o Coliseu do Porto a uma entidade privada através de um concurso público, a CDU veio manifestar o seu desagrado com o que diz ser uma possibilidade "inaceitável".

"É inaceitável que a mais emblemática casa de espetáculos do Porto fique sujeita à possibilidade de haver um contrato de concessão a uma nova entidade privada, a pretexto de ser necessário um grande investimento para obras a realizar no edifício", diz o comunicado. Esse "grande investimento" ronda os oito milhões de euros.

A CDU é um partido, pode emitir um comunicado de imprensa - no caso, a anunciar que vai "de imediato" pedir uma reunião ao autarca Rui Moreira e à ministra da Cultura Graça Fonseca - e todos ficamos "de imediato" a saber. Mas quantas pessoas, agentes, entidades e estruturas não terão ficado igualmente abaladas com a notícia, sem que esteja nas suas mãos emitir uma nota de grande alcance? Não é importante saber quem tem maior ressonância da sua indignação, é importante perceber que talvez essa indignação não seja exclusiva da CDU. Mas é sobretudo importante descobrir o que realmente indigna. Sabe mesmo o que é?

Em 1995, o Coliseu tinha um inimigo, chamava-se Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O inimigo queria comprar a que era então a maior sala de espetáculos da cidade para transformá-la num local de culto a troco do famigerado dízimo. O Porto ergueu-se, Pedro Abrunhosa algemou-se, o episódio abriu telejornais, o país acompanhou em tempo real aquela manifestação, e nós orgulhamo-nos disso todos os dias. "O Coliseu é nosso", gritou-se e o grito ainda hoje nos comove. Sucede que talvez tenha sido mais uma declaração de guerra do que uma declaração de amor.

Havia um inimigo que hoje não existe. Sem inimigo, haverá correntes humanas? Não há duas histórias iguais, nem dois bilhetes dourados na mesma paragem, mas se houver, o que pode o poder simbólico da contestação pública contra um imóvel a precisar desesperadamente de obras? E, portanto, de dinheiro?

Convém lembrar a montanha russa que tem sido a história do Coliseu nas últimas duas décadas. Nesse ano de 1995, a cidade mobilizou-se e, em menos de um mês, reuniu mais de cinco mil associados e mais de 100 mil contos. Foi aliás por causa dessa estrondosa lição de cidadania que Fernando Gomes, então presidente da Câmara Municipal do Porto, indeferiu a mudança de objeto social do Coliseu e inviabilizou a transação.

A Associação dos Amigos do Coliseu do Porto compraria assim, formalmente, aquele equipamento, no dia 2 de agosto de 1996. O preço? 600 mil contos. Qualquer coisa como três milhões de euros. Se for tida em conta a inflação, serão 4,6 milhões aos preços atuais. Mas a bonança estava longe de poder ser celebrada. Um mês depois, um incêndio destruiria quase tudo, a torre do palco, o equipamento, a plateia.

Nessa altura, foi João Cravinho, então ministro do Planeamento, que fez com que o Estado subsidiasse a obra em 350 mil contos, mas com a promessa de não voltar a ser incomodado. Foi tudo pintado e remodelado. E recuperada a traça de 1941.

Dez anos depois, em 2005, quando foi inaugurada a Casa da Música, os alarmes voltaram a soar. Seria agora que o Porto trocaria o velho amor pelo Coliseu pela nova paixão pela Casa da Música? Não foi. A cidade cresceu contra ventos e marés, foi descoberta pelo turismo, reganhou estatuto e agenda cultural e talvez tenha percebido que há lugar para todos. O Coliseu afirmou-se pela ópera e pelo circo e, mesmo como sala de acolhimento, passaram por ali muitos dos nomes que nunca mais vamos esquecer. Basta lembrar Bob Dylan. Mas são tantos.

A questão é: o que queremos que seja o Coliseu? Queremos municipalizar um imóvel que é de uma associação privada sem fins lucrativos? Queremos concessioná-lo a privados? Queremos que continue em decadência física acelerada até que haja uma tragédia? Devemos discutir o assunto, todos, mas não devemos matar as soluções possíveis, como a aventada esta semana pela autarquia, se não temos soluções melhores. Por razão nenhuma. E muito menos por pirraça. Porque a cidade não é isso. Nunca foi.

Pense nisto. E porque vai estar frio e a chover, aqui ficam quatro poetas maravilhosos para ler, durante o fim de semana, à lareira: Manuel Resende (1948-2020), tradutor e antigo jornalista do JN, que em 2018 - "70 anos depois de ter nascido e 50 anos depois do maio de 68" -, nos abençoou com 250 páginas de poesia, e esta semana nos deixou; Rui Caeiro (1943-2019), que perdemos em janeiro do ano passado, mas não sem antes deixar-nos o tesouro que é "O Sangue a Ranger nas Curvas Apertadas do Coração". Dois homens, dois mestres inigualáveis. E duas mulheres: Hilda Hilst (1930-2004), porque é excecionalíssima, e porque este ano faria 90 anos; e Cláudia R. Sampaio (1981), a jovem que não podemos perder de vista, e de quem acaba de sair, na Porto Editora, "Já não me deito em pose de morrer".

Ao contrário do que ela escreveu - ela e o Pina -, ainda não é tarde para quase nada.

"toda a gente sabe que o futuro
é dos bêbados
os únicos que aguentam
não cheirarem a hoje
não dizerem hoje"

Bom fim de semana.

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