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Ramalho Eanes marca o penálti

Ramalho Eanes marca o penálti

Uma carta supostamente escrita por F. Scott Fitzgerald durante a injustamente batizada gripe espanhola em 1920, e partilhada nos últimos dias, tornou-se rapidamente viral nas redes sociais. A missiva, que nos fala da cómica falta de cuidados de Hemingway e do zelo de Zelda em assegurar bebidas alcoólicas em casa, seria um bálsamo perfeito em 2020. Se não fosse falsa.

A carta que nos faltava, sobretudo nesta quinta-feira em que se dobra e aperta o estado de emergência, foi escrita em voz alta, em tempo real, pelo primeiro presidente da República português democraticamente eleito após a revolução de 1974. O general Ramalho Eanes, na entrevista conduzida pela jornalista Fátima Campos Ferreira, na RTP1, na quarta-feira, às 21 horas, marcou o penálti decisivo.

Porquê?
Porque enquanto andamos todos entretidos, entediados ou conformados, a discutir a marca da distância social do penálti, mais metro menos metro, Ramalho Eanes apontou à baliza e escreveu um tratado sobre o presente. Para o futuro.

Daqui a cem anos, quando alguém quiser abraçar alguém poderá fazê-lo com uma carta real, que é impossível não partilhar integralmente.
Obrigada. Fiquem em casa.

I

Esta batalha é de todos. Só a podemos vencer se todos nos empenharmos, se todos a conhecermos, se todos fizermos aquilo que se impõe fazer. Esta batalha exige-nos que sejamos virtuosos, isto é, humildes. Que percebamos, de uma vez por todas, que somos falíveis e muito frágeis. Uma fragilidade que só se compensa através de uma intercomunicação autêntica com os outros. Se pensarmos em tudo isto, e sentirmos que esta batalha é uma batalha de todos, de co-responsabilidade e solidariedade, podemos vencê-la. E estou convencido de que a vamos vencer. O medo é razoável, mas é nossa obrigação ultrapassá-lo. Nesta altura, temos que pensar que estamos com os outros. Temos de pensar menos no "eu" e mais no "nós", para que todos aqueles que carecem de apoio, tenham o nosso apoio, a nossa solidariedade, a nossa co-responsabilidade.

II

A globalização trouxe uma interdependência sentida, mas não trouxe uma solidariedade, como diz Morin. E é essa solidariedade que é indispensável. Esta crise demonstra que nenhum país, por si, consegue resolver os problemas. A própria China, poderosa, no início da crise, recebeu apoio de França e da própria Itália. Só pensando com humildade, com co-responsabilidade e pensando que nós, e só nós, podemos responder à crise, encontraremos naturalmente soluções. O "eu", o meu interesse, o meu individualismo estão ultrapassados.

Ultimamente, tem-se falado muito na geopolítica das emoções. Porque o homem é um ser de emoções. As emoções são extremamente importantes. Tiveram uma importância enorme em todos os movimentos sociais e políticos dos últimos anos. E têm uma influência importantíssima na situação atual.

As pessoas têm medo, e com razão. Alimentam mitos, e sem razão. Para ultrapassar o medo, é preciso perceber que esta crise, à semelhança de outras crises muito grandes, como a de 1918, pode ser vencida. Mas não podemos vencê-la fechados no nosso "eu", nos nossos interesses. Só podemos vencê-la pensando em nós, actuando em função disso. E respondendo a todas as exigências que nos são solicitadas, e que são socialmente muito custosas. Porque o homem é um ser social. Quer estar com os outros. E nós pedimos-lhe que esteja em casa, não saia, que não contacte com os seus.
Que não assista ao fim dos seus ente-queridos, que não faça luto. Isto é um pedido enorme.

Esses momentos [de luto sem corpo nem cerimónia] são inqualificáveis. Aquilo que se sente não se pode expressar verbalmente. Mas é possível ultrapassá-los quando a solidariedade é manifesta. Quando a ligação entre os homens é correta. E quando se pensa que afinal a vida é uma passagem. E que nós não podemos evitar que a morte surja.

III

O amor está em todos os lados, em todas as alturas, em todas as situações. E aquele que vai morrer, se sentir esse amor, vai sentir-se mais apoiado. A espiritualidade não está no local de culto. A espiritualidade está em cada um de nós, e na relação de nós com os outros. Todos nós ouvimos, todos nós lemos que "Cristo é amor puro". E o que é o amor puro? Amor puro é estar com os outros em todo o lado, e em qualquer lado, da mesma maneira - de maneira dedicada, doada, da maneira solidária. Se pensarmos assim, podemos ultrapassar essa mágoa, que não é ultrapassável, de não não estar com os entes que nos deixam. De não fazermos o luto que é habitual nas nossas sociedades, e que faz parte da nossa interiorização subconsciente.

IV

Teoricamente, num combate há sempre uma frente. Há sempre uma primeira linha e uma segunda linha. A primeira e a segunda linha devem atuar coordenadamente segundo uma estratégia. E a estratégia, na sua definição mais simples, é a inteligência aplicada à ação. Na primeira linha deviam estar, não os hospitais, mas a política. E as forças de segurança, os partidos políticos, a polícia, as Forças Armadas. E nós todos.

Talvez nós tenhamos feito isso - e fizermos bem -, mas com algum atraso. Talvez tivesse sido melhor termos feito isso com mais antecedência. Embora seja muito fácil dizer o que era melhor depois de as coisas terem acontecido. Os hospitais devem ser uma segunda linha. Para ali, só devem ir aqueles que, estando numa primeira linha, não aguentaram, e acabaram por ter necessidade de ser apoiados. Isto, obviamente, para os hospitais que não se transformaram naquilo que se transformaram os de Itália, de Espanha, de França e, também um pouco, de Portugal.

Os hospitais devem ter capacidade de respirar. Ter capacidade de o seu pessoal não se esgotar fisicamente. De a sua capacidade não se esgotar. Capacidade para atender a todos os que carecem desses cuidados de saúde. Andámos bem. Andaram bem as instituições, o presidente da República, o Governo, os partidos políticos, as organizações, as forças sociais, também a polícia, a GNR, os bombeiros, as forças de segurança e as Forças Armadas.

V

As Forças Armadas deviam ter sido chamadas mais cedo. Estão a ser chamadas. Talvez ainda não tenham dado tudo aquilo que podem dar. Têm enorme capacidade, embora pouca disponibilidade. Têm fracos meios humanos, mas têm uma grande capacidade, como se tem visto naquilo que têm feito: nos lares, nas evacuações. Em Itália, até no transporte das urnas para os cemitérios.

Como permitimos que na linha da frente estivessem os hospitais, criámos uma situação embaraçosa. Juntámos a linha da frente, com a linha da retaguarda. E temos tido problemas. Nesta altura, já se está, de alguma maneira, a tentar que haja uma separação. Vamos consegui-lo com dificuldades e com custos que teriam sido parcialmente evitados.

Na frente há um empenhamento total de bens e pessoas. Quando esse empenhamento é insuficiente, então há uma retaguarda. Aliás, isso é muito claro nos Estados Unidos. Há agora um grande navio-hospital que atracou em Nova Iorque. Tem mil camas, mais de mil médicos e dez salas de operações. Ali só são tratados os indivíduos que não têm Covid-19, só aqueles que têm outras patologias. Isso é razoável. A pandemia não faz com que a vida pare.

VI

Têm estado a ser adotadas medidas interessantes, medidas que tentam transformar este tsunami num conjunto de vagas. O tsunami iria destruir tudo, as vagas vão molhar toda a gente, vão ferir muita gente, vão fazer com que alguns morram, mas vão dar tempo para que nos afastemos e tomemos medidas. Para que utilizemos as forças convenientes que devem estar na frente, para criar as barreiras e a segurança

Lançámos boias para sustentar esta crise económica inelutável. Mas é necessário lançar mais boias. E é necessário que haja uma relação dialógica com todos. Para que todos possam contribuir. Para que a solidariedade e a co responsabilidade sejam efetivas. Não é admissível que haja portugueses que não tenham que comer, que não tenham onde dormir.

A Europa está num momento crucial. Está num momento em que avança e se afirma, ou pode inclusivamente morrer. Mas não sou tão pessimista. Apesar de tudo, há sinais interessantes. Foi possível acabar com o mito do défice. Foi possível permitir que o poder ajude as empresas. A mutualização da dívida não teve sucesso na cimeira - e devia ter tido. Mas lá chegaremos. Por outro lado, há sinais extremamente interessantes. A França está a ser ajudada pela Alemanha, pelo Luxemburgo, pela Bélgica. Os franceses estão numa situação dificílima. Os hospitais passaram da linha da retaguarda para a primeira linha, e estão esgotados. E não têm pejo, e muito, bem, em usar as Forças Armadas. Usam helicópteros, aviões. E muito bem. Tal como os alemães, e bem, para fazer as evacuações.

VII

Não quero fazer críticas ao Estado português. As críticas são sempre resultado de opiniões, e as opiniões não são juízes. Mas deveríamos ter usado as Forças Armadas mais cedo e mais intensamente. Elas estão ali para as situações de crise. Um militar está de serviço 24 horas. Dorme no posto, se necessário. Poderia ter ajudado a que a primeira linha guardasse possibilidades mais longas ao longo do tempo, e que a segunda linha não fosse tão assoberbada. E que os médicos e os enfermeiros e o pessoal sanitário, todos realmente extraordinários, não passassem pela crise que estão a passar. Uma crise impensável e até anti-ética.

Um médico tem que escolher entre aquele a quem aplica o ventilador e aquele a quem não o aplica. Tem que escolher entre aquele a quem pode proporcionar a vida e aquele a quem tira a vida. É uma situação que não quereria nunca viver.

VIII

Perdemos a humildade. Perdemos a capacidade dialógica com os outros e com o mundo. Perdemos o sentido de co-responsabilidade e o sentido, que é próprio do homem, de estar permanentemente com o outro. Somos seres sociais desde a nascença. Isso levar-nos-á necessariamente a uma nova reflexão. Primeiro, uma reflexão sobre os agentes políticos: - como permitiram que se chegasse aqui? Uma reflexão sobre o homem: - como foi tão egoísta, tão individualista, que esqueceu que o mundo é um mundo de inter-relação permanente?

Como vamos gerir a globalização? A globalização é interdependência, mas deixou de ser solidariedade. Não pode ser. O homem, com os avanços da Ciência, com os avanços da Tecnologia, julgou que era capaz de tudo, que podia dominar tudo. Esta situação pandémica mostrou que o homem continuar a ser frágil, falível. Tem que estar permanentemete em ligação, em comunhão com os outros não só para fazer o trabalho, mas para se proteger. E para poder ter futuro

IX

Isto vai fazer com que repensemos o próprio Estado, as próprias funções do Estado. O Estado não pode ter funções mínimas como se diz. O Estado tem que ser o Estado necessário. Um Estado que não olha apenas para a situação presente, para as eleições e para o resultado dessas eleições. Tem de olhar para o futuro. E para o futuro da sua comunidade. E procurar fazer o indispensável para que esse futuro seja viável.

Agora, há falta de médicos e enfermeiros. Não é possível improvisar médicos e enfermeiros. É possível construir rapidamente ventiladores, como acontece naquele centro de investigação de Matosinhos. No fim de maio, terá produzido 400. No fim do ano, poderá ter cem mil. Se tivermos capacidade, porque educámos e investimos convenientemente na nossa gente, conseguiremos dar respostas. Agora, tudo aquilo que implica competências pessoais.

X

A Europa tem uma história de nacionalizações. A França, depois da guerra, nacionalizou parcialmente a Renault. A Alemanha nacionalizou uma parte significstiva do Commerce Bank. É natural que venha a acontecer nacionalizações parciais ou totais. E até que venha a acontecer que bancos centrais (é uma medida que está a ser discutida na União Europeia) comprem obrigações diretamente às empresas, para que as empresas mantenham a sua capacidade produtiva. Para que quando a crise permitir a volta programada parcial ao trabalho, as empresas tenham capacidade produtiva, e não caiamos numa crise económica que termine uma crise social, com enorme perturbação.

Penso no que aconteceu na crise de 1929 na Alemanha. O Chanceler Brüning impôs, tal como na nossa última crise, uma política de rigor financeiro. O que aconteceu? Uma situação catastrófica. Uma situação social impensável. Uma crise política que levou ao fascismo.

XI

A situação de crise presente afeta todos. Temos que pensar racionalmente e não emotivamente. Afeta todos por igual. Velhos e novos. Esta crise não vai acabar agora. E não é por causa da vacina. Mesmo que aparecesse no fim do ano, demoraria mais de um ano até que todos fossem vacinados,

Eu sou um velho, tenho 85 anos. Nós, os velhos, devemos pensar que a nossa situação é igual à dos outros. E, se alguma coisa há, é uma obrigação suplementar de dizer aos outros: isto já aconteceu, isto ultrapassou-se, isto vai ser ultrapassado. E nós, os velhos, vamos ser os primeiros a dar o exemplo: não sairemos de casa, recorreremos aos cuidados que nos são indicados. E mais: quando chegarmos ao hospital, se for necessário, oferecemos o nosso ventilador ao homem que tem mulher e filhos.

O confinamento é anti-natural. É anti-social. E leva a situações complicadas. Temos de estar prontos para essas situações complicadas. Haverá necessidade de apoio psiquiátrico, psicológico. E temos de estar preparados para isso. É necessário que as pessoas se convençam de que têm uma responsabilidade acrescida, não só em relação ao presente mas em relação ao futuro. E que têm de ficar em casa o tempo que for necessário, não impedindo que se criem condições, nomeadamente de proteção, para que aqueles que são indispensáveis ao funcionamento mínimo da economia, continuem a trabalhar.

XII

O amor é sempre indispensável. É o amor que faz com que o homem seja virtuosamente social e não socialmente anti-social. O amor leva-nos à disponibilidade de nos sacrificarmos pelos filhos. Fui militar. O amor leva-nos à disponibilidade de sacrificarmos pelos outros. Nesta altura, leva-nos à disponibilidade de nos sacrificarmos não apenas pelo país, mas também por todos os outros seres.

Esta crise é um momento de silêncio, de reflexão, de comunhão. Se não for assim, estaremos a perder uma oportunidade única, que nos é oferecida com dramatismo, com dor, com desgosto.

XIII

Os nossos irmãos não são só os nossos concidadãos, são também aqueles com quem fizemos um percurso histórico. No nosso caso, portugueses, os países africanos de expressão oficial portuguesa. Devemos estar empenhados, disponíveis e preparados para os ajudarmos.

As situações em Angola vão ser muito graves. Na África do Sul, no Zimbabwe em particular, vão ser gravíssimas, não só pelas povoações que têm milhares de casas sem condições, mas também pela falta de água. Como vão dizer aos zimbabuanos que lavem as mãos, se não têm água para beber? Ou têm pouca? Devemos estar atentos, preparados e criar condições para ajudar. A Europa não pode nunca abdicar de uma responsabilidade ético-histórica de apoiar estes povos quando for necessário.

XIV

A Europa está a ser o centro da crise epidémica, porque esqueceu que o futuro exige resposta estratégica, informação, decisão oportuna. Esta crise surgiu depois de vários avisos. No Oriente houve o SARS-Cov, e foi terrível. Tivemos o Ébola, o HIV, mas entendemos sempre que isso era com os outros. E que nós, desenvolvidos e higienizados, iríamos resistir a tudo. Não resistimos.

XV

A Europa esqueceu-se até dos avisos na ONU e do Banco Mundial em setembro passado, de que, com muita probabilidade, iria haver uma crise pandémica muito grave, com um vírus que iria trnsmitir-se pelo ar, e que iria provocar uma crise sanitária, social e económica. E que não se sabia se esse vírus viria da natureza ou de alguma laboratório de guerra biológica.

A Europa tem que se preparar. Os centros continuam a produzir respostas anti-virais e anti-biológicas. Mas o homem é falível. Em qualquer altura poderá uma falha, uma fuga e teremos uma nova pandemia.

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