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Ri-te, ri-te, que logo choras!

Ri-te, ri-te, que logo choras!

Lembro-me bem daquelas vezes em que, por não me portar bem, levava umas "nalgadas""da minha mãe. Às vezes dava para escapar, embora não por muito tempo, e lá vinha o aviso: "Ri-te, ri-te, que logo choras". E chorava.

Lembrei-me disto depois de ver a atitude do basquetebolista francês Rudy Gobert, que joga pelo Utah Jazz na NBA, nos Estados Unidos da América. Na semana passada, no final de uma conferência de imprensa tocou com as mãos nos microfones dos jornalistas. Gozou com as medidas de prevenção para evitar a doença Covid-19. Riu-se. Dois dias depois "chorou". Deu positivo no teste do novo coronavírus.

Este episódio deveria servir de alerta para todos os que, nos últimos tempos, têm rido abundantemente enquanto se entretêm a criar alarme social através de mensagens de texto, voz e vídeo sobre o pesadelo que estamos a viver, para depois as disseminar pelas redes sociais.

São os tudo-e-mais-alguma-coisa de um profissional de saúde, e é se não se autoproclamarem como tal, que sabem segredos tenebrosos sobre a pandemia que as autoridades, alegadamente, não revelam e que só servem para fazer aumentar o clima de medo.

Riam enquanto podem, porque amanhã pode ser que chorem. O novo coronavírus não escolhe raças, credos ou estatutos sociais, pelo que muitos destes irresponsáveis também podem vir a cruzar-se com ele.

E depois há os que partilham tudo o que lhes aparece nas redes, sem sequer duvidar por um instante da sua veracidade, sem confirmar se a fonte é fidedigna. Mesmo sem ter essa noção, ajudam a espalhar o medo.

Mas será que se o Cristiano Ronaldo cedesse mesmo os seus hotéis para acolher doentes de Covid-19 os órgãos de comunicação social nacionais não diriam uma única palavra sobre o assunto? Seria um exclusivo de um qualquer iluminado das redes sociais? Juízo!

Oxalá esta crise ajude a abrir os olhos, a separar o trigo do joio, a valorizar a comunicação social que tem obrigações a respeitar e cujos jornalistas obedecem a códigos de ética e deontologia. Pena que os criadores e espalhadores de mentiras nunca sejam responsabilizados. A única forma de os travar é ignorá-los, deixar de os seguir, de comentar e de partilhar.

Neste momento crítico, mais do que ir bater palmas para a varanda, cada um deve fazer o que as autoridades pedem para travar a disseminação do novo vírus. Se cada um fizer o que pode e deve, a mais não é obrigado. Ajudará, e muito, se não se puser a jeito para ir parar a um hospital e contribuir para complicar a vida, cada vez mais dura, dos nossos profissionais de saúde. Mas também ajudará, e muito, se não for para o supermercado açambarcar bens de primeira necessidade. Onde está a solidariedade com que tantas vezes se enche a boca?

Infelizmente, o número de casos continua a aumentar em Portugal. O galope do vírus em Itália (mais de 2500 mortos à hora em que escrevo) e Espanha (500) deve fazer-nos colocar a faca entre os dentes e enfrentá-lo da única forma que é possível: confiar nas autoridades e fazer tudo o que nos pedem, sem facilitar. E nada de rir ou gozar com a situação, para amanhã não ter de chorar.

O noticiário é tanto e tão diverso que o melhor é segui-lo aqui e acompanhar aqui a evolução da pandemia a nível mundial.

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