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São lágrimas de Portugal

Não se sabe porquê, não se sabe quando, não se sabe quem. Só se sabe que, esta terça-feira, várias estátuas do Porto foram vandalizadas e pintadas com "lágrimas" azuis. E que, no ano passado, por esta altura, aconteceu o mesmo. Não deixa de ser irónico, no entanto, que isto aconteça por estes dias. Primeiro, que aconteça no rescaldo de um país que chora, solidário, pelos insultos racistas de que foi alvo Marega, o jogador do Futebol Clube do Porto. Depois, porque no dia em que as pinturas foram feitas nas estátuas, há motivos para tristeza, de norte a sul.

Em Moimenta da Beira, chora-se a morte de uma menina de 12 anos, que morreu, esta terça-feira, no início de uma aula de Educação Física, na Escola Secundária. Em Viana do Castelo, chora-se a morte de um trabalhador, de 50 anos, que morreu após despiste da empilhadora que conduzia, na Zona Industrial de Lanheses. E, em Beja, ainda se chora a perda de outro homem, de 60 anos, que morreu, no hospital, ao fim de quatro horas à espera para ser atendido. Não, esta notícia não é repetida. Lamentavelmente, é apenas semelhante a outra, com mais ou menos uma semana, ocorrida em Lamego, quando José Ferreira, de 65 anos, morreu no hospital, com pulseira amarela, depois de seis horas à espera nas Urgências. Como se não fosse suficientemente mau haver uma pessoa a pedir ajuda a um hospital, por estar doente, e a morrer sem sequer ser vista por ninguém (mesmo que o desfecho até pudesse ser, depois, a morte), há duas.

Dizia eu, no início, que havia motivos de tristeza, de norte a sul. Há. E, em alguns casos, a tristeza mistura-se com a estupefação. Porque, acredito eu, deve ser assim que sentem os trabalhadores da empresa Alberto Sousa, Lda., fabricante de calçado mais conhecida pela marca Eureka. É que, depois de a unidade fabril ter fechado portas, na sexta-feira, deixando 150 pessoas no desemprego, alegando "motivos de ordem económica", descobriu-se agora que a empresa está na feira de calçado de Milão, em Itália, a apresentar uma nova marca, mas com a mesma morada.

E, por falar em estupefação, hoje, na nossa edição em papel, trouxemos outra daquelas noticias de deixar de boca aberta qualquer cidadão que viva neste país, em pleno século XXI: o Tribunal de S.João da Madeira está tão degrado, que até fita adesiva tem nas janelas, para travar o frio. Ou, então, isto se calhar já nem deixa ninguém assim tão boquiaberto, por não ser, infelizmente, caso único em Portugal. O que é ainda pior.

Na verdade, não deve ser por nenhuma destas noticias que as estátuas da Invicta "choram", é certo. Mas também é certo que, apesar de a Câmara do Porto já ter agendado ações de limpeza dos monumentos, ainda não se sabe porquê, não se sabe quando e não se sabe quem pintou as "lágrimas"...que afinal não são tão descabidas assim. Podiam bem ser, sem o serem, "lágrimas de Portugal", daquelas de que Fernando Pessoa tanto falava. É que, não sei se já disse, mas há motivos para tristeza. De norte a sul.

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