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Se eu nunca me esqueci, que fará ela

Se eu nunca me esqueci, que fará ela

Corria o ano de mil novecentos e troca o passo, andaria eu no primeiro ou no segundo ano da Escola Primária, quando descobri que a escola não é sempre aquela segunda casa, segura, que deveria ser. Se fosse, eu não teria assistido à minha professora, que tão amistosa e afável era comigo, a bater com a cabeça da uma colega minha no quadro de lousa pendurado na parede. E, depois, contra uma mesa, agarrando-lhe nos cabelos. O motivo da agressão? A aluna era um pouco lenta na aprendizagem e, consequentemente, não conseguia resolver um problema que estava no quadro. Não foi mal-educada. Não chamou nomes à professora. Não gritou. Não fez nada. E o problema foi esse: não fazer nada. Naquele dia, a lição mais dura não foi escrita a giz, mas ficou na memória para sempre: o ser humano é um bicho estranho.

Recordo-me desta história várias vezes. Principalmente quando leio notícias como as que vieram a público ainda ontem, quando um professor da Escola Rainha D.Leonor, em Lisboa, foi detido, por suspeitas de ter agredido um aluno. Professor esse que se soube, hoje, que ficará em liberdade, enquanto aguarda o desenrolar do processo.

Não é justificável que um professor bata num aluno. Mas também não é aceitável que um aluno, ou um pai de um aluno, bata num professor. No entanto, todas essas situações acontecem, mais vezes do que deveriam. Ter-se-á a violência tornado um problema nas escolas portuguesas? Ou sempre o foi e nunca se encontrou solução para ele?

Em Valença, essas questões também estão na ordem do dia. Mostra disso mesmo é que, nesta terça-feira, houve duas manifestações opostas, contra a violência nas escolas. Uma, convocada pela comunidade escolar, depois da alegada agressão de um pai de uma aluna a quatro professores e funcionários. Outra, levada a cabo por uma comunidade cigana, à qual pertence o alegado pai agressor, que protestou contra o racismo, uma vez que o homem garante que a filha foi agredida primeiro. Isto aconteceu num dia em que da atualidade noticiosa fizeram parte outros casos lamentáveis, ainda que de âmbito diferente, como é o caso da família que foi encontrada morta no Fundão, o facto de a poluição no rio Douro estar acima do limite, há mais de 30 anos, e a notícia que nos diz que a fatura do Estádio de Braga já dava para fazer um novo hospital.

Mas, no meio de tantas notícias de hoje, volto àquelas cujo teor mais me preocupa: a violência nas escolas. Por parte de vários atores, sejam alunos, pais ou professores. É que, nos espaços escolares, aprende-se matemática, português e geografia, mas também se aprende (ou deveria aprender) a ser um melhor cidadão e um melhor ser humano. E a violência nunca irá contribuir positivamente para a formação da sociedade. A escola é habitada, maioritariamente, por crianças e jovens. E crianças e jovens não deveriam ser alvo nem motor de violência. Aliás, ninguém deveria. Mas o ser humano é um bicho estranho e, muitas vezes, age sem que lhe consigamos atribuir uma justificação. O certo é que, no meu caso, eu nunca me esqueci de como me impressionou, de forma negativa, a minha professora a bater com a cabeça da minha colega no quadro e, depois, contra uma mesa, agarrando-lhe nos cabelos. E se eu nunca me esqueci, que fará ela!