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Simplificar é complicado

O acaso decidiu entregar-nos este privilégio: obras da maior pintora - Paula Rego -, do maior cineasta - Manoel de Oliveira - e dos maiores arquitetos portugueses - Álvaro Siza e Souto de Moura - estão em simultâneo, em exibição, em Serralves, no Porto, e na Casa da Arquitetura, em Matosinhos. Contempla-se e parece-nos tudo simples, fluido, fácil - como se de um traço numa folha de papel se tratasse.

Acontece que é uma história tão velha como a Humanidade: simplificar é bastante complicado. A procura pela beleza essencial, pura, é insaciável e nunca cessará. Souto de Moura explica o que sente: continua a tentar fazer "a mesma casa, sempre a mesma casa. Ainda não sei qual é. No dia em que souber, paro". O arquiteto, como outros, à procura das suas casas perfeitas.

Pedro Costa mantém o seu percurso singular no cinema mundial com "Vitalina Varela", que se estreia hoje nas salas portuguesas e traz um Leopardo de Ouro e outro prémio de Locarno. Mais um galardão para o realizador português, que continua a ser celebrado internacionalmente.

Ney Matogrosso, "o camaleão sem medo", como o apelidou esta semana o JN, num artigo com uma conversa com o artista brasileiro, está de regresso a Portugal para concertos nos Coliseus do Porto e Lisboa. "Eu me recuso a ter medo, porque não quero ser uma âncora do medo. Não sou. Não tenho medo". Está para a política como para a vida: "Tenho a clareza de entender que a idade, em algum momento, vai-me impedir, mas não impede ainda.". Tem 78 anos e continua à procura, em palco, do sítio onde habitar o inconformismo.

O inconformismo surpreende. Veja-se (ouça-se) o vinil. Os audiófilos nunca desistiram desta tecnologia de agulha e agora as vendas estão a caminho de superar o CD. Nos EUA, está para muito breve. Em Portugal, será provavelmente em 2021. Só nos últimos cinco anos, triplicou o valor do mercado das velhas rodelas.

E leia-se esta história. Uma senhora francesa tinha um quadro antigo pendurado na cozinha. Alguém a aconselhou a mandar avaliar a obra. Para quê conformar-se? A pintura afinal era valiosa e foi a leião. Foi vendida por 24 milhões de euros!

A maior surpresa da vida desta senhora estava dentro de casa, esse território que conhecemos por dentro e onde habitam todas as coisas que nos confortam e inquietam. É em casa - o local onde tudo é simples - onde tudo se pode complicar.

"Uma casa é as ruínas de uma casa / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra; / desenha-a como quem embala um remorso, / com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso"* .

O Pina sabia bem como era simples complicar uma casa.

* in "Como desenhar uma casa", Manuel António Pina