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Talento e insubmissão

"Filme de Scorsese vai estrear no Netflix". Se isto não é um manifesto sobre a mudança não sei o que é o mudar. Podia ser o resumo desta década das artes da imagem e do som em movimento, e de como o movimento tecnológico forçou a revolução. O cinema de autor está sem espaço nos grandes estúdios de cinema? Salte-se diretamente para o streaming: há muito dinheiro disponível ( "O irlandês", que estreou esta semana no Netflix, custou perto de 140 milhões de euros) e a definição de prestígio alterou-se profundamente.

O streaming é a cassete de vídeo dos novos tempos e, nos velhos tempos, passar para cassete sem passar pela sala de cinema era um sinal de falhanço. Acontece que não consta que o cinema seja avesso à mudança. É uma indústria incrivelmente resiliente, assente num equilíbrio tenso entre três forças extremamente poderosas: criatividade, dinheiro e tecnologia. Há 100 anos que é assim e assim será nos próximos 100. E, esta década, não faltou força nem ao dinheiro (o cinema e a TV gerou milhares de milhões), nem à técnica (da película ao digital), nem à renovação artística (novos e excelentes argumentistas, realizadores e atores).

Os 2010's foram o ano de Mia Hansen-Love, Adam Driver, Greta Gerwig ou Barry Jenkins, de Damon Lindelof, Saoirse Ronan, Pawel Pawlikowski ou Jafa Panahi, de James Gray, Clint Eastwood, Sophia Coppola, Jean-Luc Godard ou Wes Anderson, que mantiveram a sua expressão e importância. Faltam aqui muitos nomes para tanto talento que existe.

É por isso que o debate sobre as plataformas é desinteressante. O mundo quer obiquidade e essa força é imparável, como é a do talento, desde sempre o fator que decide os que perduram. É essa a verdadeira discussão: como ajudar e financiar a criatividade relevante?

Não falta polémica, em Portugal, sobre essa matéria, como se sabe. As estruturas que não foram contempladas nos apoios à Direção-geral das Artes insurgem-se e pedem que a demissão da ministra da Cultura. Graça Fonseca vai esta quinta-feira ao Parlamento dar explicações.

Trata-se de um problema clássico em Portugal. Ainda bem. É suposto que a arte seja insubmissa e que os autores sejam agentes de um inconformismo militante. Assim nos lembram os dois grandes que conversaram esta semana com o JN, o realizador britânico Ken Loach (tem um novo filme, "Passámos Por Cá") e a escritora chilena Isabel Allende (que lançou um novo livro, "Longa pétala de mar").

Aguardemos, pois, que a próxima década assim continue. Que o talento e a insubmissão nunca percam a vontade de reivindicar o espaço e o dinheiro que precisam para nos fazerem felizes, melhores.

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