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Um país de rampas avariadas

Um país de rampas avariadas

Em Lisboa, um homem em cadeira de rodas bloqueou um autocarro, cansado e frustrado por ter de esperar "várias vezes" pelo próximo autocarro da Carris que não tenha a rampa de acesso avariada. Era noite de passagem de ano e o motorista informou o cidadão que teria de esperar pelo próximo, hora e meia mais tarde, e sem garantia de que teria a rampa funcional.

"Sabia que não deixar a careira sair não ia resolver a minha situação, até ia prejudicar os outros passageiros, mas quis dar um alerta à empresa, que tem de assumir responsabilidades por estes episódios", relatou.

De forma surpreendente, alguns passageiros juntaram-se a ele no bloqueio do veículo e chamaram a PSP. Ao cabo de uma hora, a empresa chamou um autocarro capaz de levar a cadeira de rodas.

"Os motoristas ficam mal vistos e são alvo de revolta dos passageiros. Dói ver as pessoas todas a entrarem no autocarro, e a pessoa deficiente ficar na rua, sozinha, sentindo-se mal e abandonada", lamentou um ex-funcionário da Carris, que diz ter alertado a empresa, ao longo de anos, para o problema.

Algo semelhante estará a passar-se no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Durante anos, as populações manifestaram-se, os profissionais de saúde organizaram greves e protestos e todos alertaram para a degradação do serviço ao longo de décadas de cortes. A 'troika' teve as costas largas para algumas situações, mas a crise acabou vai para cinco anos e nada mudou.

Desde 2013, foram registados 4893 casos de violência contra profissionais de saúde, dos quais 636 envolveram agressões físicas. Médicos e doentes estão cansados, porventura frustrados, e fala-se agora na implementação geral de um impensável "botão de pânico" para os profissionais.

Rui Rio culpa o Governo pela "situação explosiva" que se vive na saúde. O PSD quer ouvir a ministra sobre a "falência funcional" do SNS. Já há muito que o "botão de pânico" devia ter sido acionado, na perspetiva dos políticos que fazem oposição aos políticos que eram oposição quando o governo cortou a eito na saúde, na educação, nos transportes, nas condições de vida da população.

O país tem funcionado como a empresa que possui as rampas para deficientes, mas estão avariadas e ninguém se importa se funcionam. Porventura, no dia em que a população decidir bloquear essa continuação dos autocarros que se seguem, uns atrás dos outros, com rampas que só fazem figura, alguém será obrigado a compôr o sistema.

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