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"Uma Revolução não falha nem triunfa. Altera"

"Uma Revolução não falha nem triunfa. Altera"

Setembro é aquele mês prodigioso em que a agenda cultural é retomada, renovando de sentido a nossa vida. A partir de agora, e até ao fim do ano, há tantas coisas tão importantes para ver, que o melhor é mesmo fazer uma lista com tudo o que não se pode perder.


Este é definitivamente o ano de Tiago Guedes, o realizador, e de Albano Jerónimo, o ator. Ambos conseguem, nesta abertura de temporada, uma omnipresença incomum em vários palcos. Tiago Guedes estreia esta quinta-feira "A Herdade", o filme que já vem com o selo de qualidade do Festival de Veneza e que seguirá para Hollywood como representante português na corrida aos Oscars. Acresce que Tiago Guedes é, também, um dos melhores encenadores do país. Conseguiu-o logo no primeiro tiro, em 2006, com a encenação magistral de Pillowman, da autoria do britânico Martin McDonagh. Quem viu nunca mais esqueceu. Esta quinta e sexta-feira está em cena, no Teatro Municipal de Matosinhos, a peça "A Matança ritual de Gorge Mastromas", que representa um regresso à dramaturgia de outro espantoso autor britânico, Dennis Kelly.

Eis uma amostra do que está em causa: "A existência não é aquilo que até este momento pensaste que era. Não é honesta, não é gentil, não é justa. A maior parte do mundo não faz ideia disso, acreditam em Deus, ou no paizinho ou em Marx ou na mão invisível do mercado ou em honestidade ou bondade. Atravessam a vida, de olhos fechados, a levar porrada e ser lixados. Ele é assim. Tu és assim. Mas uma ínfima parte de nós, chamemo-nos a resistência, sabemos a verdadeira natureza da vida. É-nos dado o mundo. Somos poderosos e ricos e temos tudo, porque faremos tudo o que for preciso."

Mudando de palco e de encenador. Se há encenador, em Portugal, que rivaliza com Tiago Guedes é Nuno Cardoso, que à sua carreira profícua e de consistência rara, junta agora também a direção do Teatro Nacional São João, no Porto. E foi nesse palco que ontem estreou "A morte de Danton", um desejo antigo de trabalhar sobre o texto de estreia de Georg Büchner (outro regresso de um encenador a um autor, de quem já fizera o inesquecível Woyzeck), tinha o autor alemão apenas 21 anos. E talvez nenhum outro texto faça tanto sentido nesta altura estranha que o mundo vive de forma disfarçada, tentando fazer de conta que está bem aquilo que está mal, e suspirando, talvez secretamente, por uma revolução. É de Nuno Cardoso a frase certeira: "Uma Revolução não falha nem triunfa. Altera."

Albano Jerónimo, que é protagonista de "A Herdade", repete o protagonismo em "A morte de Danton", nos dois cenários a ser alvo, com justiça, dos mais rasgados elogios. Mas o actor é também encenador de uma peça que também acaba de estrear: "O Amante", de Harold Pinter, está no Teatro da Trindade, em Lisboa, até 10 de novembro.

No cinema, além de "A Herdade", há mais três filmes impossíveis de saltar: "Dor e Gloria", de Pedro Almodovar; "Santiago, Itália", de Nanni Moretti e o inesperado "Amazing Grace", um retrato de Aretha Franklin, que perdemos há um ano, por Alan Eliott e Sidney Pollack.

Finalmente, os livros. Continua a Feira do Livro do Porto nos jardins do Palácio de Cristal, mas desde esta semana com uma cereja: já chegou à Flanêur o terceiro livro editado por esta livraria: "Criança e Rosa", de Gennady Aygi, traduzido por Daniel Jonas. "E as almas são velas que se acendem umas às outras" é a frase de abertura.

Já o Bairro dos Livros lança, esta sexta-feira, às 21h30, a 2ª edição revista e aumentada do Mapa do Bairro. Guia Literário da Cidade, uma experiência do Porto para amantes de livros com um concerto de boa música e spoken word muito especial dos Fabricantes de Pegadas, com Alex Cortez, Filipe Valentim (ambos dos Rádio Macau), Paula Cortes (os três integrantes da Lisbon Poetry Orchestra) e José Anjos. O evento é de entrada gratuita e acontece no PINC-UPTEC (Praça Coronel Pacheco, nº2).

Ponha tudo na agenda e tenha um bom fim de semana.