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Vale do Tua: "O destino do amor!"

Vale do Tua: "O destino do amor!"

Tropeço no slogan do Vale do Tua: "O destino do amor!" Explicam-mo: "Quem cá vive ama o Tua, quem cá vem apaixona-se também". Concluo: "O que um punhado de palavras bem casadas consegue fazer!"

Não valerá a pena discutir agora se o vale do rio Tua era mais bonito sem barragem. Está feita e a funcionar. Ponto. O belo-horrível - a beleza da paisagem selvagem só cortada pela linha ferroviária, em comunhão com a profundidade do vale, a arrepiar quem ali viajava - morreu. Também daria pano para mangas o malfadado plano de mobilidade em comboio e barco, que ano após ano tropeça em obstáculos. Nem um apita nem outro levanta âncora.

Por agora é tempo de aproveitar o que há. E o que há é uma paisagem que em boa parte continua a ser selvagem, cortada por percursos pedestres que já são em número de 12, com ingremidades e extensões para todos os gostos, para os mais e menos afoitos.

O que verdadeiramente se tem revelado um sucesso são os miradouros. São vários, mas há dois que têm motivado autênticas "excursões": O "Olhos do Tua", em Castanheiro do Norte (Carrazeda de Ansiães) e o "Ujo", em São Mamede de Ribatua (Alijó). São peças de verdadeira arte escultórica. A primeira de Paulo Moura (que também assina o miradouro de São Lourenço em Pombal de Ansiães) e a segunda de Henrique Pinto e Filipe Calisto.

Não sei se é possível ou sequer permitido, mas uma rulote de gelados e água ali, mesmo que só ao fim de semana e aos feriados...

O caso é que estes dois miradouros, só por si, conseguem atrair uma imensidão de gente, de perto e de longe. Nem quem vive cá e ama o Tua esperava tanta. E daí aquela outra parte do slogan que reza que "quem cá vem apaixona-se também".

Há quem se apaixone só pelas fotografias que os outros partilham nas redes sociais. Como o amigo que há dias me perguntava: "Ó Pinto, como é que se vai ao miradouro dos 'Olhos do Tua'?" Ou como aquele grupo de motards que um destes dias merendava numa mesa de madeira ao lado do "Ujo" enquanto bebia a paisagem.

O vale do Tua está no interior do país. É o de um rio que até resulta da junção dos rios Tuela e Rabaçal, em Mirandela, e vem por ali abaixo a serpentear como risco ao meio entre Murça e Vila Flor, e entre Alijó e Carrazeda de Ansiães, até se escoar no Douro.

A covid-19, essa doença que nos aflige desde março, acabou por fazer com que os holofotes apontassem para o interior. De repente, destinos tantas vezes ignorados ou relegados para pequenas escapadas, tornaram-se os principais para férias. Muitos estão já esgotados. E não é que até são agradáveis? E não é que até oferecem boas condições? E não é que, afinal, temos tanto e tão bom em Portugal? Nunca o slogan "vá para fora cá dentro" terá feito tanto sentido.

Há certamente destinos extraordinários no estrangeiro, mas bem explorado o nosso país há de ser o suficientemente motivador para nos deixar ficar por cá, pelo menos até fintarmos o vírus que provoca a covid-19. E depois... depois quem sabe se não será melhor acabar de explorar tudo o que acabe em ponto PT. Talvez dê para uns bons anos.

Há dias, numa quinta do Douro, durante uma reportagem, uma turista habituada a Nova Iorque, Paris, Londres, etc. dizia-me: "Isto é tão bonito! Às vezes até me esqueço que estou em Portugal. Sim, era portuguesa. Talvez seja uma boa altura para agarrar com força o slogan do Vale do Tua e emprestá-lo ao país: "Quem cá vive ama-o, quem cá vem apaixona-se também".

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