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Diz-se que neste lugar, em tempos, houve um cais

Diz-se que neste lugar, em tempos, houve um cais

O porto de Moynaq, no oeste do Uzbequistão, é uma assombração. É a vista para o Mar de Aral, o mar que minguou até morrer, até matar tudo à sua volta. O mar que caiu pela pátria, porque a pátria fez da água que o alimentava o combustível da produção de algodão. O porto de Moynaq, no oeste do Uzbequistão, é o retrato do maior erro humano. É o da morte.

Ao leme de um pesqueiro, a vista é desafogada, duas janelas ou três, grandes, abertas sobre o mar. Ou pode ser a mesma vista, infinita, apercebida de uma vigia, um quadro circular, como o Planeta é a origem das coisas. Da terra vem o que à terra vai ter. Do mar virá o que ao mar irá ter. Viria. O horizonte, observado deste navio, é amarelo-areia e verde-estepe. Ou castanho, ou uma cor indefinida como a das ervas do deserto.

O azul está lá. É o do céu. O azul já não é o mar. Isto é Moynaq, a janela para o maior desastre ambiental com mão humana jamais visto na Terra. Porque se perdeu para sempre a possibilidade de vê-lo, ao céu, refletido no mar. É o retrato da ganância e da estupidez, da procura do capital por um sistema socialista, todos os contrassensos estão sobre a mesa que, imaginamos, estava aqui, encostada a esta parede da cabine de navegação. É um tutorial sobre como fazer desaparecer um mar inteiro. O Mar de Aral. O quarto maior mar interior do Planeta. Em 1950. Hoje é uma miragem no deserto.