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Dor que arde sem ceder

Em 40 anos, morreram em Portugal mais de 200 bombeiros. Mulheres e homens que partiram enquanto lutavam para ajudar outros. Mas o altruísmo dos soldados da paz não ameniza a dor dos que ficam. Dos pais, irmãos, filhos, maridos, esposas, amigos que os viram partir sem aviso e sem despedida. E que ainda hoje sucumbem ao peso de uma chaga que não cura.

Há dias demoníacos, indizíveis, que não saram nunca. Há dias que nenhum pai sonha, concebe, admite. Há dias que nenhum pai pode aceitar. Há dias que se colam ao lado mais negro da alma e ali ficam, a dilacerar como martírio perpétuo. Para Serafim Santos, 67 anos, pai por duas vezes, um desses dias - houve outro, mais de dez anos antes, mas dessa outra chaga falaremos depois - foi naquele 10 de agosto de 2010. Era terça-feira, Portugal estava feito um bafo desmedido, incêndios vários, 428 ocorrências registadas pelo país fora. A um deles, no concelho de Gondomar, acorreram os bombeiros de Lourosa (Santa Maria da Feira). Cristiana Santos, filha de Serafim, também lá ia. Estudante de Engenharia Biomédica, 21 anos, primeira mulher a ter a melhor nota no curso de bombeiro, já fazia dois anos, nunca hesitava perante um alerta.

Naquele dia maldito, o pai nem a sabia na linha de fogo. Mas começou a pressentir a desgraça quando o telefone tocou. Atendeu Alzira, companheira há mais de 20 anos, a única que teve desde que se separou da mãe dos filhos. Serafim sentiu-a estranha, nervosa, percebeu que algo de grave se passara. Alzira ajuda a recordar aqueles momentos de angústia profunda. "Era um sobrinho. Perguntou-me se estava com ele e disse-me: "Foge da beira dele. Parece que a Cristiana faleceu". Mas ele sofre de arritmias. Não lhe quis contar logo." Só que Serafim já estava num desassossego, a paz toda a fugir-lhe do corpo. Insistiu até Alzira lhe dizer que se passava qualquer coisa com a filha. Ele saiu disparado para o quartel, já o pior a vir-lhe à cabeça, uma angústia incessante a fazer de piloto automático. "Quando lá cheguei e os vi todos à minha espera percebi logo que algo de grave se passava. Até à última ia na esperança de que não fosse isso." Mas era.

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