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Filhos das crises. Histórias duras, memórias cruas

Filhos das crises. Histórias duras, memórias cruas

A II Guerra Mundial colocou pobres em filas para o pão. A ditadura separou famílias. África mora no peito de um passado feliz. A troika obrigou a uma nova emigração. Recordações de crianças em momentos marcantes da História de Portugal.

O pai foi preso pela PIDE na madrugada de 3 de dezembro de 1948. Alberto Serrano, filho único, tinha quatro anos e não se lembra se houve despedida. A memória anterior a esse dia pára na sua humilde casa em Alcobaça, com uma trapeira, e nas brincadeiras com o pai. Prendiam um isqueiro num fio para fazê-lo deslizar da cabeceira até ao fundo da cama como se fosse um funicular. A memória volta a dias depois da prisão do pai, Albino Serrano. A mãe fez as malas para irem viver com os avós paternos e um tio, em Alcobaça. Família de trabalho, a mãe teve de procurar emprego. Arranjou-o numa fábrica de fiação, seis quilómetros a pé para cada lado, de dia e de noite, ao sol e à chuva, trabalho duro, por turnos.

"Na prática, a prisão do meu pai tornou-me órfão de pai e mãe." A mãe com horários que não lhe permitiam uma presença regular junto do filho. O pai preso na cadeia do Aljube, aos 25 anos, por ter distribuído propaganda antifascista e contra Salazar. "Quando foi conhecida a sua localização e a possibilidade de ter visitas, recordo ter ido a Lisboa com a minha mãe. Tenho gravado o momento em que no parlatório, separados por duplo vidro com uma grade interior, a minha mãe pediu ao guarda que ouvia a conversa que me levasse a dar um beijo ao meu pai, o que foi recusado." As visitas eram penosas física e emocionalmente, longa distância, raros transportes, pernoita em Lisboa.

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