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A segunda morte de José Afonso

A segunda morte de José Afonso

Um imbróglio jurídico esconde o paradeiro dos originais do mais simbólico dos cantores de intervenção, que no dia 2 de agosto completaria 90 anos. Os masters podem estar algures nos Estados Unidos, podem estar em lugar incerto de Lisboa, podem ter sido destruídos. Restam cópias. E o desespero pelo desaparecimento de um património cultural incalculável.

Um saco de discos para vender após os concertos. Uma mala com um pijama e roupa simples. Folhas de eucalipto para enganar a sinusite. Pão integral. Era pouca a bagagem de José Afonso quando fazia espetáculos que exigiam pernoita. Também não podia faltar um gravador, aparelho em que, estivesse onde estivesse, apontava sonoramente os acordes e poemas que lhe vinham à cabeça, muitos deles primeiros esboços de canções que se tornariam definitivas e o consagrariam em lugar cimeiro na história da música portuguesa.

Grande parte dessa obra está hoje perdida ou em paradeiro incerto. No ano em que completaria o 90.º aniversário - nasceu a 2 de agosto de 1929, em Aveiro -, José Afonso anda em bolandas. Os originais dele, mais concretamente. Onze álbuns da discografia encontram-se desaparecidos, pelo menos, desde 2008, depois de a editora Movieplay alegadamente os ter vendido a uma empresa offshore, a Multiform Investments, registada fiscalmente na cidade de Wilmington, no estado americano do Delaware.