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Casal Ventoso: As saudades que as máquinas não demoliram

Casal Ventoso: As saudades que as máquinas não demoliram

Viviam em condições precárias. Sem água, eletricidade ou esgotos. Não tinham quase nada. Até aos anos 1980, a pobreza marcava a rotina do bairro lisboeta. Mas eram felizes. Chegou a droga, o tráfico, os toxicodependentes. E logo a necessidade absoluta de demolir o casario ilegal e de distribuir a população por três urbanizações. Duas décadas depois, quem ali morou ainda não fez o luto. As boas memórias nunca são realojadas.

Quando éramos novas, já estávamos todas casadas, mas brincávamos muito. Todo o bairro era uma família. Púnhamos a TV - uma raridade na altura - cá fora e era bailarico e saltar fogueiras. Convivíamos todos." As recordações são de Maria Pereira, 82 anos e uma boa disposição que contagia, à porta de casa, no Bairro do Loureiro, uma das três urbanizações que recebeu os habitantes do Casal Ventoso, quando, há precisamente 20 anos, o camartelo avançou e demoliu as casas onde viviam cerca de 250 famílias.


Não era fácil sobreviver no Portugal de miséria da primeira metade do século XX, mas era "tão simples" ser feliz para esta gente, que encontrava na união e no espírito de comunidade o ânimo para lutar por tudo o que lhe faltava a nível material. "Ai, tenho tantas saudades da minha casinha, de ir às minhas vizinhas buscar um ramo de salsa ou de açúcar, da mercearia com a lista de fiados", suspira Clementina Valente, do alto dos seus 94 anos, bem vividos e repletos de experiências.
Viviam em pátios e casas unifamiliares, muitas vezes em condições precárias, sem água, eletricidade ou esgotos. Não tinham quase nada. Mas eram essa "grande família" onde o pouco que cada um tinha sobrava sempre para repartir com aqueles a quem um imprevisto batesse à porta. Até aos anos 1980, era a pobreza que marcava a rotina do Casal Ventoso, um bairro onde a maioria dos homens trabalhava na estiva e as mulheres em fábricas ou nas limpezas. Depois, veio a droga. O consumo e o tráfico. O cenário naquela encosta do Vale de Alcântara, à entrada sul de Lisboa, transformou-se. Para muito pior. A insegurança e o vaivém constante de toxicodependentes foram a pedra de toque para a necessidade absoluta de demolir o casario ilegal e de abrir caminho ao realojamento em três bairros contíguos à Avenida de Ceuta, um processo que começou em 1999, há precisamente 20 anos.