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Os mortos que a Guerra Colonial deixou para trás

Os mortos que a Guerra Colonial deixou para trás

Propriedade esquecida da memória coletiva, quase metade dos soldados portugueses tombados em combate continuam sepultados em África. São 3 736 os que ainda permanecem enterrados em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, em campas que há muito foram comidas pelo avanço da vegetação ou desprezadas pela incúria humana. Há famílias, porém, que não desistem de os trazer para Portugal.

O veículo Unimog seguia tonto, bruto e desengonçado pela picada que aproximava a coluna de exaustos soldados ao quartel-general instalado na Fazenda Tentativa, no Caxito. Homens da Bateria de Artilharia 147, uma das primeiras a chegar a Angola nesse 1961 que acordou com Salazar a responder em força ao massacre dos independentistas da UPA - 800 mortos, a grande maioria colonos brancos. "Para Angola rapidamente e em força", ordenou o ditador aos microfones da RTP e da Emissora Nacional a 13 de abril. E Aquilino Silva Gonçalves, 21 anos por completar e noiva por desposar, foi. Ele que mal sabia manejar uma arma e poucos meses de tropa tinha cumprido.

Por culpa do piso traiçoeiro ou apenas pura incompetência do destino, ninguém sabe, a pesada viatura de fabrico alemão desgovernou-se e atirou ao solo os jovens militares que na caixa aberta tentavam aguentar-se sentados a cada metro de buracos e lombas. Aquilino foi dos primeiros a ser projetado. O franzino aldeão de Ponte de São Vicente, concelho minhoto de Vila Verde, mergulhou violentamente de cabeça na terra cor de barro, que mais parecia cimento de tão dura e seca. Morte imediata naquele chão inóspito de uma Angola armadilha mortal. E um corpo que demorou quase 60 anos a regressar à terra que lhe dera berço e vida.