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Padres às claras, pais em segredo

Padres às claras, pais em segredo

Ninguém sabe quantos são, onde estão, que dores de alma carregam. Mas ninguém nega que eles existem. Tanto que o Vaticano já admitiu ter um guia para estes casos. São os filhos dos padres. Os que crescem a chamá-los tios. Ou padrinhos. Raramente pais. Ou os que, por medo e vergonha, acabam negligenciados. Mas também há os que juram não ser filhos do pecado. Antes do amor. De um amor que não cabe nos cânones da Igreja Católica.

Há muito que Maria se habituou a ter o pai a centenas de quilómetros. A distância não a aflige. Aprendeu cedo que não há ausência que o peso de um laço de sangue não esmague. Nem saudades que o amor não amarfanhe. Os quilómetros dissolvem-se nos telefonemas diários, nos conselhos que a ajudam a fugir aos becos dos dias, nos jantares demorados, vertidos em felizes copos de vinho, como se o tempo fosse deles por inteiro. Não é. Compensam com os momentos que conseguem passar juntos, em pedaços de fins de semana aqui e ali. E com as férias. Ou com os Natais. Mesmo que, para os celebrarem em família, tenham de trocar as voltas ao calendário. "Juntamo-nos e trocamos prendas. Só não o fazemos no dia de Natal, porque o meu pai tem de estar na paróquia." A paróquia rouba-lhes a ilusão do tempo por inteiro e o recato de uma relação normal entre pai e filha. O nome também. Maria não tem o nome do pai. "Sou bastarda." Mas não lhes rouba o amor. Nunca o amor.


O pai de Maria é padre. Já o era quando ela nasceu, há mais de 30 anos. Já o era há quase 50, quando os pais se apaixonaram, indiferentes à batina e a tudo o que vem com ela. Os amores proibidos têm esse vício maldito, de ignorar as regras da lógica. O deles fez da lógica gato-sapato. E cresceu, tão interdito quanto resiliente. "Os meus pais são namorados há 45 anos. Posso duvidar de muita coisa, mas nunca do amor daquelas duas alminhas", orgulha-se a filha. Só que o orgulho de Maria não liberta o pai do peso das normas da Igreja. O amor, este amor, não cabe no voto de castidade e no celibato obrigatório. Nem na "continência perfeita e perpétua por causa do Reino dos Céus", inscrita no cânone 277 do Código de Direito Canónico. E assim, com perto de 80 anos, o homem que Maria jura adorar "de morte" é padre às claras e pai em segredo (e companheiro, de há uns anos para cá também avô). Ironicamente, padre vem do latim "pater", que significa pai.