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Tourette: os tiques que viram a vida do avesso

Tourette: os tiques que viram a vida do avesso

Paulo, 25 anos, tem a coluna de um septuagenário, de tanto sacudir a cabeça. Afonso, 12 anos, não resistia a colar o nariz ao chão onde quer que fosse. Laura, 10 anos, chegou a dizer (involuntariamente) centenas de palavrões por dia. Em Portugal, há, desde 2017, uma associação dedicada à síndrome de Tourette, onde têm chegado dezenas de casos. Mas a doença continua a ser um tabu.

Paulo Gonçalves, 25 anos, tinha sete quando os primeiros tiques motores começaram a aparecer. Uma careta que o fazia parecer "um coelhinho", um esgar de boca, os olhos a piscar, a barriga a contrair. Depois, vieram os tiques vocais. Um "oh" repetido à exaustão e um pio semelhante ao de um mocho. "Durante muito tempo, substituía uns tiques pelos outros", conta. E a mãe, inquieta e incansável, num corrupio infrutífero. "Corri tudo o que era médico, no público e no privado, mas ninguém me sabia dizer o que ele tinha", lembra Carla Moreira. Quase todos desvalorizaram o problema.

Foi já uns cinco anos depois do aparecimento dos primeiros tiques que, numa das muitas clínicas em que entrou, foi dar com um médico espanhol que identificou o problema. E não, não eram manias, nem sequer simples tiques nervosos, como outros médicos chegaram a augurar. Paulo tem síndrome de Tourette, uma perturbação neurológica crónica que afeta entre 0,3 e 1% da população mundial e que se manifesta através de tiques motores e fónicos. Para selar o diagnóstico, os tiques têm obrigatoriamente de persistir durante mais de um ano.