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Quando ensinar é sinónimo de assédio

Quando ensinar é sinónimo de assédio

Convites indesejados para copos, ajudas despropositadas, toques inapropriados, retaliações agressivas perante um "não". Duas vítimas de professores universitários acederam a partilhar a sua história com a "Notícias Magazine". Mas há um imenso manto de silêncio que continua a imperar. A vergonha, a culpabilização e a sensação de impunidade podem ajudar a explicá-lo.

A princípio, até lhe pareceu só brincadeira. Como quem não quer a coisa, ele ia dizendo, por vezes até à frente dos colegas, que, se não fosse professor dela, haviam de ir beber uns copos. Ela, lá está, inicialmente nem o levava a sério, ria-se e desvalorizava. Mas os comentários começaram a tornar-se algo repetitivos. E ela foi ficando mais à defesa. Até pelas insistentes tentativas dele de a ajudar. "Houve uma altura em que tivemos de entregar o tema para o projeto da cadeira. Na semana seguinte, não parava de receber emails com pesquisas feitas por ele, para o tema do meu projeto." Nádia, chamemos-lhe assim, estranhou. Perguntou aos colegas se o docente tinha feito o mesmo com eles. Não tinha. E então achou que, por alguma razão, era a aluna favorita. Logo aí começou a sentir-se incomodada. "Não me sentia bem com o facto de estar a ser favorecida. Mas demorei a perceber que havia outras intenções." Essas haveriam de se denunciar com o decorrer do projeto, e os necessários encontros presenciais, com a mão que desobedientemente lhe ia desfilando pelo cabelo, com os toques subtis na anca, com as declarações repetidas de que gostava mais de trabalhar no projeto quando estavam "só os dois", com os intrusivos convites para irem sair.

"Aparecia-me com imensos papéis fotocopiados, a dizer que já tinha feito esta e aquela parte por mim. Tudo muito estranho. Comecei a ter uma péssima sensação à beira dele." O desconforto era tal que suplicou às colegas para nunca a deixarem a sós com ele. Mas um dia tiveram mesmo de sair. E ele aproveitou. "Sentou-se à minha beira e não me deixava em paz. Sempre a dizer que era muito bonita, que já não se faziam mulheres como eu, que gostava de ter uma mulher assim na vida dele, a mexer-me no rabo de cavalo." Nádia explodiu. "Você não me volta a tocar!", intimou-o. E disse-lhe tudo o que andava ali a remoer há muito tempo: que já tinha deixado claro que não tinha interesse, que não gostava das coisas que ele dizia, das ajudas excessivas e do que se podia dizer. Ele ouviu mudo e saiu calado.

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