Opinião

Editorial: A solidão de Costa

Editorial: A solidão de Costa

O silêncio de Marcelo Rebelo de Sousa foi, esta semana, ensurdecedor. A viagem para o Vaticano, à hora em que o Conselho de Ministros fechava o plano para reabrir o país, deu-lhe o pretexto para desta vez não falar aos portugueses, mas não disfarçou a discordância com as medidas tomadas ainda antes da Páscoa. O Governo ficou sozinho e é de António Costa o risco de um calendário que vai além das linhas estreitas marcadas pelo presidente e pelos epidemiologistas.

As datas são, ainda assim, cautelosas a todos os níveis. Deixam os alunos do Secundário mais um mês em casa. Prolongam a retoma da atividade económica por quase dois meses, a um ritmo muito mais lento do que era pedido pelas empresas. Preveem travões claros, combinando o número de casos com a taxa de transmissão. Contemplam medidas localizadas, se for preciso recuar.

Depois de semanas atabalhoadas, em que o Governo pareceu incapaz de planear e nada avançou a partidos e parceiros sociais, as datas ontem apresentadas foram claras e permitem a previsibilidade de que a sociedade e a economia já tanto precisavam. Resta, agora, esperar que não falhem dois objetivos essenciais para que não haja novos recuos. Do lado do Governo, capacidade de ser proativo e eficaz a testar, rastrear e vacinar com a máxima rapidez. Do lado da população, o cumprimento rigoroso das regras, para que não haja um relaxamento que coloque em causa um pesado esforço coletivo.

Ao contrário do que apontava a matriz apresentada no encontro do Infarmed, o Governo cumpriu a promessa de começar a desconfinar pelas escolas e manda já as crianças do 1.o ciclo para aulas presenciais. Não se trata apenas de uma vitória política do ministro da Educação, mas de uma condição que estava socialmente interiorizada para que a economia pudesse também começar a mexer.

Menos afetada diretamente pela doença, a geração mais jovem é particularmente castigada pelos efeitos colaterais dos dois grandes confinamentos. António Costa pode vir a ser criticado por arriscar, mas seria imperdoável que não tivesse sensibilidade social para medir este impacto de longo prazo.

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