Opinião

A Flauta Mágica

Quem diria, há um ano, que o novo Don Juan das mais aburguesadas classes médias europeias, arvorado cavaleiro do renascimento capitalista e vendido aos seus como um sabonete, haveria de encontrar à esquerda, entre Lisboa e Madrid, os seus principais aliados na frente comunitária?!

Emmanuel Macron, presidente francês, veio até cá por poucas horas mas por boa causa, a que se juntou também o novel presidente do Governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez. E aquele pequeno trottoir de simpatia popular, entre o Chiado e o Grémio Literário, valeu por três em um.

Um: A cimeira marca o fim do isolamento ibérico em termos energéticos, permitindo transferir entre estados a eletricidade produzida por Portugal e Espanha e os restantes parceiros europeus. É, finalmente, a abertura ao Mercado Único da Energia, pondo termo ao interruptor francês. E é uma enorme vitória de António Costa, da diplomacia portuguesa e dos seus intérpretes, no que é também um brinde ao recém-chegado Sánchez.

Dois: Macron estava a precisar disto. As sondagens dão-no no seu ponto mais baixo de popularidade entre os franceses, e enfrenta, esta terça-feira, a primeira moção de censura na Assembleia Nacional. E quando não se ganha em casa, convém mostrar créditos externos.

Três: Eis porque juntar Lisboa e Madrid ao eixo Paris-Berlim é vital, também, para viabilizar as reformas que o francês tem preconizado e que a chanceler Merkel está disposta a acolher. Seja para mudar o Eurogrupo ou para aprofundar os mecanismos de defesa europeus, permitindo enfrentar futuras crises e os desafios globais que poucos países podem gerir sozinhos. Além de que uns e outros concordam na repartição solidária dos imigrantes para mitigar a eurofobia e recuperar os sinais de identidade das políticas comunitárias. De Salzburgo, na Áustria, onde assistiu como convidado de honra à "Flauta Mágica", ópera de Mozart, o presidente Marcelo acenou satisfeito. Pode agora ir de férias, oxalá tranquilas.

* DIRETOR