Opinião

A rábula do gordo

A minha declaração de rendimentos, para efeitos de IRS, inclui as remunerações de uma professora. Pelo que, feita esta declaração de interesses, me sinto autorizado a reconhecer que "o material escolar mais barato que existe na praça é o professor". Bem sei, cito de cor a rábula de Jô Soares, o cómico gordo. Mas é no regateio dessa mercearia que andamos há anos, um biombo de interesses que secundarizam o essencial: a importância decisiva da educação para o futuro do país. Porque não há ferramenta mais eficaz para garantir a mobilidade social, reduzir as desigualdades e fermentar competitividade na economia.

Em quatro décadas de democracia, é difícil descortinar um ano que não tenha conhecido instabilidade nas escolas. Entre governos, partidos, sindicatos e outras corporações, se algo tem sido prejudicial no nosso país é o ziguezague das diferentes políticas, mais tentadas a impor um modelo ou agenda próprios que orientar a atividade educativa durante largos períodos de tempo, muito mais dilatados que os ciclos eleitorais. E, entretanto, a "instrução pública" continua doente, reproduz desigualdades sociais, assimetrias regionais.

É urgente um pacto nacional pela educação. Uma reforma não deve estar sujeita a mudanças drásticas, embora deva acompanhar a evolução social e tecnológica. Um grande acordo na área educativa, que envolva todos os parceiros, deveria garantir estabilidade e ter em conta que as famílias e o contexto socioeconómico são elementos essenciais do sistema. Mas é indispensável resgatar o ânimo e o orgulho dos professores, cada vez com mais responsabilidades e menos apoio das famílias, num tempo em que a função do Estado é também assegurar-lhes formação, treino, experiência e metodologia adequados. Sem esquecer, claro, a exigência de contrapartidas em avaliação. Um pacto nacional pela educação tem de valorizar a função docente e aqueles a quem, durante muitas horas, confiamos os nossos filhos.

Diretor