Opinião

Há prostitutas?

É lendária, entre jornalistas, a rábula que conta o episódio da chegada do arcebispo da Cantuária a Nova Iorque, em visita oficial. Ainda mal pisara terra e já um repórter lhe pedia um comentário sobre a presença marcante de tantas prostitutas naquela cidade norte-americana. Surpreendido com a pergunta e a ganhar tempo para engatilhar uma resposta, o líder espiritual da Igreja Anglicana soltou um "Ah! Mas há prostitutas em Nova Iorque?" No dia seguinte, um jornal noticiava a vermelho e em manchete: "Acabado de desembarcar, Primaz de Inglaterra pergunta se há prostitutas na cidade".

A anedota, que nem é certo ser verdadeira, ilustra o que pode acontecer quando as declarações de alguém surgem amputadas ou fora do contexto em que foram proferidas. Trata-se de uma técnica legítima, quando aplicada com talento e correção ética, mas em muitas ocasiões favorece a manipulação - inconsciente ou dolosa.

Esta semana, a frase do primeiro-ministro, dizendo que o fogo de Monchique foi a "a exceção que confirmou a regra do sucesso da operação, ao longo destes dias", fez títulos e ecrãs de crítica, por mostrar "insensibilidade". Ora, se há coisas que António Costa sabe bem é que uma má comunicação pode comprometer o sucesso; mesmo quando o que se quer dizer, com verdade, é que, apesar de termos o maior dispositivo de sempre, em meios técnicos e humanos, afetos ao combate a incêndios, o pior ainda pode estar para vir; e que todos temos um contributo a dar.

Sem um pacto e políticas de médio e longo prazos para a floresta e para o nosso mundo rural, o país vai continuar a arder, todos os anos e com maior gravidade, independentemente de quem governa. A um ano de eleições, já sentimos no ar o bafo da pré-campanha. É bom, porém, que os políticos de turno, no poder ou na oposição, evitem a tentação populista, deem prioridade à prevenção, e deixem o fogo aos profissionais.