A ABRIR

Oitavo dia

Por falar em férias, durante muitos séculos os relógios eram coisa de rico e o tempo, tirando o sol a sol, era marcado a toque de sinos, coisa das igrejas. Com o tempo, foi-se democratizando a contagem do tempo. E hoje, as novas tecnologias estão a mudar as nossas vidas e a alterar a nossa relação com o tempo, na forma intrusiva como percebemos a sua passagem.

Impacientes, cada vez mais impacientes, parece-nos por vezes que o nosso relógio interior funciona mais rápido, acelera. Temos, então, a impressão de que o tempo voa, impelidos agora por esse engenho que convertemos num prolongamento do nosso próprio corpo, o omnipresente telemóvel: uma conversa, ferramenta de trabalho, mas também entretenimento, sempre pronto a oferecer-nos nova distração. Mas acontece, porém, que esse mesmo artefacto também funciona como congelador de instantes, a suspender-nos a vida na espera de uma resposta que não chega. E então parece que o tempo desesperadamente se alonga.

Ora, gozar férias tem de significar romper com essa artificial sensação de urgência, quebrar rotinas ou, simplesmente, descansar. Apesar de mal-afamadas, entre os que apenas conhecem a sofreguidão destravada do trabalho que explora os mais pobres, as férias são conquista de homens livres. Descansar é um verbo divino. E o maior elogio das férias e do descanso é invocar o seu divino inventor. É do livro do Génesis (Gn 2, 2-3) que "Deus repousou ao sétimo dia de todo o trabalho realizado. Abençoou-o e santificou-o, visto ter sido nesse dia que descansou de toda a obra da criação". Importa, pois, descansarmos. Para os crentes, como Deus manda. Para esses e para os outros, investigadores de uma universidade finlandesa quiseram apurar o número mínimo de dias de descanso que deveríamos tirar. Acompanharam 54 trabalhadores, de diferentes atividades e em períodos diferentes de férias. E concluíram que só ao oitavo dia é que verdadeiramente começamos a repousar.