Opinião

Arca de Noé

Juntemos um raminho de hortelã, três pedras de gelo e umas raspas de limão. É preciso refrescar a conversa sobre estes dias de torra que já são os mais quentes do século, uma vaga de calor capaz de cozer miolos em banho-maria. Os peritos previnem que vai fazer mortes, muitas.

Degelo nos polos, furacões mais violentos nos trópicos, seca e fogos aqui, inundações acolá, o tempo treslouca. Os especialistas alertam há muito que as mudanças climáticas não se manifestam apenas no aquecimento global progressivo - já estamos, em média, um grau acima da era pré-industrial - mas na forma de fenómenos extremos, mais intensos, mais frequentes e em qualquer parte do Mundo.

"O Senhor viu que era grande a maldade dos homens... E aconteceu que, passados sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio, chuva torrencial, quarenta dias e quarenta noites" (Génesis). Cada vez mais frequentes, os fenómenos extremos e os desastres naturais voltam a espevitar narrativas com aspirações bíblicas, como se a ira dos céus abatesse sobre nós o castigo que expia o pecado da nossa dependência dos combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pela emissão de gazes com efeitos de estufa.

Na última Cimeira do Clima, em Paris, discutiram-se muito os altos custos das medidas indispensáveis para evitar (a catástrofe) que a temperatura suba acima de dois graus no final do século. Mas há também que avaliar o custo, em termos económicos e de vidas, que esses fenómenos extremos já importam e mais provocarão no futuro, se não corrigirmos com urgência as políticas de energia e, claro, os nossos comportamentos como consumidores. À escala dos estados ou da cidadania, a necessária mudança de hábitos e de rumo dá-nos a oportunidade de mudarmos também. Mais que as preces retóricas para evitar o dilúvio, é crucial que pensemos como construir as nossas arcas de Noé. Porque a vida não é uma corrida solitária, é uma viagem partilhada.

* DIRETOR

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