Opinião

Muxima!

Alguém da plateia gritou heresia, que o homem aterrou de ganga! E logo se levantou um chinfrim, melhor dizendo algazarra, esse abrasivo vocábulo que herdámos dos mouros e a que o provérbio chinês responde com sabedoria: quando um dedo aponta a Lua, o tolo olha para o dedo.

Isto, para quantos quiserem apoucar, a pretexto de uma frivolidade protocolar, o enorme alcance da visita oficial do primeiro-ministro a Angola, quando se completa, esta semana mesmo, o primeiro aniversário da chegada de João Lourenço à presidência da que é já hoje uma das maiores potências emergentes entre as nações africanas.

Há precisamente um ano, quando do discurso de posse, Lourenço omitia deliberadamente Portugal da lista de prioridades da diplomacia de Luanda. Pairava sobre as relações luso-angolanas uma nuvem de desconfiança e um prolongado desencontro das instituições judiciárias dos dois países quanto ao cumprimento de acordos vinculativos entre estados soberanos.

Ora, ultrapassado o "irritante", como então lhe chamou o ministro Augusto Santos Silva, foi agora possível retomar, com normalidade, aquele que é um eixo crucial da política externa portuguesa: a lusofonia. E em menos de três meses, António Costa acaba de concluir em Luanda um verdadeiro périplo africano, que iniciou em São Tomé e Príncipe e o levou a Moçambique, Cabo Verde e agora Angola. Em Luanda, foram assinados 11 acordos bilaterais que vão desde a regularização de dívidas angolanas a empresas portuguesas, ao fim da dupla tributação nas transações comerciais, e ao aumento do número de voos entre os dois países. De um lado e de outro, é inequívoca a vontade política de prosseguir a cooperação estratégica entre Portugal e Angola. Os seus intérpretes sabem que a confiança é a chave de uma boa relação. E que nesta há um lastro com história e sangue dentro. E a língua comum, este trunfo irrepetível que não podemos desperdiçar. "Hei, muxima!", diria o quimbundo, que é como quem diz "ai, coração!".

*DIRETOR

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