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Opinião

Isto não é para futebóis

Isto não é para futebóis

A Segunda Circular de Lisboa, em dia de jogo como o de logo à tarde, entre Benfica e Sporting, é bem a metáfora de um país tenso e crispado, mais dividido que nunca, e um povo mais pobre, suspenso nos pés de uns tantos ricos a correr atrás da bola. Que empatem a cinco, é o que dá mais jeito a uma certa pessoa que eu cá sei e ao meu vizinho, mas isso é outra história.

Quem deve estar ansioso é Carlos Xistra, destacado para arbitrar o jogo, à altura de grandes rivais. E ponho os olhos neste árbitro, num momento crucial em que, fora do estádio, os portugueses se dividem na avaliação sobre o apito daquele outro, o supremo magistrado e presidente da República, num desafio, esse sim, que importa a todos nós, o de sabermos como se vai jogar a solução de Governo que nos cabe em sorte, depois de sete anos de austeridade e de umas eleições que já ocorreram há três semanas.

Hão de concordar os que gostam de futebol que a melhor arbitragem é aquela que não dá nas vistas e não tem influência no resultado. Mas o problema do presidente da República está hoje justamente aqui.

A única vantagem de não termos Governo na plenitude dos seus poderes é que, ao menos, não teremos a desagradável surpresa de acordar com um novo agravamento de impostos.

Até lá, sentados na bancada central, havemos de porfiar mais uns dias. É esperar que o primeiro-ministro indigitado, líder da coligação vencedora nas eleições de 4 de outubro, apresente uma equipa de Governo e submeta ao Parlamento a sua proposta de programa. E esperar também para ver se, para lá do chumbo prenunciado pelos partidos da Oposição, emerge, à Esquerda, um acordo firme, aberto e com prazos, para constituir uma alternativa que reúna o apoio da maioria absoluta dos deputados na Assembleia da República. E é aí, na contagem dos votos, que se decide quem vai governar. É assim que manda a nossa Constituição.

Queixamo-nos de um árbitro que assinala faltas ou faz vista grossa em função da sua conveniência clubística, mas é inaceitável que não resista à tentação de dar uns toques na bola, fazer assistências ou até rematar, ele próprio, à baliza.

Admitir, como alguns o fazem, a hipótese de o presidente da República manter o atual Governo em gestão até maio seria cavar o pântano e a discórdia. Pior, teríamos um presidente que, a contar os dias do final de mandato, em vez de cumprir e zelar pelo cumprimento das leis do jogo, entrasse em campo e fizesse questão de jogar.

Oxalá o meu conterrâneo Xistra tenha melhor sorte!

*DIRETOR

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