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Nem contas nem Aristóteles

Nem contas nem Aristóteles

A conversa sobre um segundo resgate à nossa economia faz-me lembrar a mão escondida de Tullius Detritus, aquele enviado de César cuja missão era semear desconfiança e a discórdia entre irredutíveis gauleses, para os tornar vulneráveis. Unidos e valentes, a única coisa que estes temiam era que o céu lhes caísse em cima. Sabiam, porém, que amanhã não é a antevéspera desse dia.

Astérix à parte, é bem mais triste a história real que vivemos cada dia. Até porque não temos a poção mágica, nem sequer o feiticeiro. Mas temos oráculos, em especial os da desgraça. À nossa frente, o mais importante momento da política caseira é a discussão do Orçamento do Estado. E, como é habitual nos discursos indígenas, havemos de ouvi-los esgrimir em nome da "classe média", ou seja, em nosso nome, os que podemos comprar este jornal ou estar a ler-me no telemóvel. Ora, antes das escolhas, porque a manta é sempre curta, convém que saibamos quem é essa tal "classe média" sem rosto o fiel na balança das desigualdades.

O relatório "Portugal desigual", patrocinado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, só amanhã será amplamente anunciado, mas já conhecemos o essencial do retrato: os anos da crise cavaram mais fundo o fosso entre ricos e pobres e foram estes os mais penalizados. Os números indicam que de 2009 a 2014 os rendimentos dos portugueses tiveram uma quebra de 12% (116 euros por mês), mas mostram também que os 10% mais pobres perderam 25% por cento do rendimento enquanto os 10% mais ricos apenas perderam 13%.

O mesmo estudo diz-nos que um terço dos trabalhadores por conta de outrem ganha menos de 700 euros mensais, e que um em cada cinco portugueses vive com um rendimento mensal abaixo de 422 euros. O número de pobres cresceu em 116 mil para mais de 2 milhões, com um quarto das crianças e um em cada 10 trabalhadores a viver abaixo do limiar da pobreza.

Se o retrato está feito, é suposto que o Orçamento do Estado de um Governo que promete inverter o ciclo de austeridade se reveja neste espelho, quando mexer nos impostos. E o que este nos diz (as contas são da Autoridade Tributária) é que 89% dos agregados familiares têm um rendimento anual até 27 mil euros. É pouco? É muito pouco! Mas, desgraçadamente, é aqui que está a nossa tal "classe média", aquela que faz ganhar ou perder eleições. Dizia o filósofo barbudo que "devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida da sua desigualdade". Eu duvido que alguns dos nossos atores políticos tenham feito as contas e, mais ainda, que tenham lido Aristóteles.

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