O Jogo ao Vivo

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Afonso Reis Cabral

Crónica à la Gonçalo M. Tavares

1. O homem que, às 11h35 do dia 8 de Julho de 2002, se ajoelhou perante a cadeia de produção da fábrica onde trabalhava. A boca da máquina debitava temperaturas na ordem dos 1300 graus, mas ele, um homem feito da carne e do osso que são particulares à espécie, manteve-se ajoelhado como uma súplica cuja vontade supera o artificialismo da Osborne, a qual, por sua vez, não se apercebe da existência do crente. A máquina não se deixa venerar.

Afonso Reis Cabral

Crónica à la Matilde Campilho

Me diz, Arthur, me fala desse erro belo de quando na sala alguém esqueceu o ar condicionado e toda a gente ficou assim meio que resfriada, principalmente ele. O do nome estranho que tu e eu repetíamos debaixo do oiti no descanso bom de quando éramos Jimi Hendrix em pleno electric blues, fingindo Brasil. Esse estranho nome sim: Schabowski. Era o nosso querido Günter, melhor até que muita mata atlântica. Que fez ele, querias saber. Tu sempre quiseste decorar as coisas belas. Nem cantou nem falou poema como Leonard declarando-se nos lugares fundos da voz. Pobre Leonard, maravilhoso Schabowski. É que num novembro de rotina, que estranho, só mais uma conferência de imprensa com AC quebrado, desistido, deixando o frio entrar numa reinação, o querido Schabowski se enganou: o povo, afinal, podia movimentar-se sem restrições e de imediato. Assim mesmo, até para um samba ou a morna, nem duvide. Ainda nessa noite, o povo fez, e o muro ruiu todinho qual canção velha, violão de não gostar mais. Foi a festa que nem uma cidade junta. Era irreal, estava down, era verdade. Tão verdade como nós dois descansando sob o oiti, os pés molhados do oceano que lá tem outro nome. A língua dos germânicos ocidentais ou orientais põe sempre palavras estranhas nas nossas coisas bonitas. Imediatamente e sem atrasos, leu Schabowski no papelinho, no gatafunho com ares de novo testamento. E foi melhor do que todas as canções das noites corridas, das salas transpiradas de Cohen: Berlim não queria mais essa cicatriz que a desfeava a meio. Já desde uma manhã em 61, muitos esqueceram. O muro começou a pichar, como disse Pimentinha. Não desfeou mais, não era preciso apresentar visto, passaporte, as folhas escritas com as justificações que a gente inventa quando quer muito. Tenho de te dizer novamente que o muro caiu, Arthur, eles se deixaram de Checkpoint Charlie e de achtung. Tanto povo em festa derrubando o cimento, pelas ruinhas o grito de alegria igual ao nosso grito de cravo, e vendo nesse 89 o futuro mais completo. Era festa, berrava o povo, era noite de partir muro. Já que não podemos festejar, diz comigo adeus ao arame farpado. E nós de pé na areia, três vezes dez anos desde então, loucos de estar nem aí pras amarras, a ver se jantamos filé a Oswaldo Aranha lá com o pequeno Mandé, que não suspeita de nossa felicidade nem sabe o alemão. Quer dizer, que nem podia saber do nosso beijão em Schabowski.