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Afonso Reis Cabral

O Ano Novo faz uma uranoscopia

Tu que esperas o Ano Novo aguenta firme. É a altura perfeita para a intervenção: acaba dois mil e irra vinte e dois, estás em crise (doem-te as inflações, sentes umas pontadas no clima e sofres de dor ucraniana), aproxima-se um ciclo renovado, e talvez até tenhas menos de trinta anos, idade que Carlos Fiolhais - citado pelo Público de ontem num artigo sobre o assunto - diz ser a mais propensa. Vá, baixa as guardas. Vou fazer-te uma uranoscopia minuciosa.

Afonso Reis Cabral

Maria João Pires, uma vida inteira

O mais sublime, para a minha avó, era uma história bem contada. Depois, quem sabe, os Nocturnos de Chopin segundo Maria João Pires, cujo álbum guardava ao pé do cadeirão de couro. A minha avó, no cadeirão, parecia um epitáfio. Lá dava o abraço leve de afonsinho, de meu queridinho, que numa mulher irónica tinha algo de reprimenda. E eu espreitava a lua, o azul, tanta melancolia sobre uma Maria João Pires sorridente. Espreitava a capa do álbum e não compreendia - era como felicidade e mal-estar.

Afonso Reis Cabral

O guito dos escritores, um obituário

Entre vendas diminutas, solicitações não pagas, jornais à míngua e demais humilhações, o rendimento dos escritores andava há muito tempo ligado às máquinas. Débil, a ouvir ao longe o dobre de finados - e magríssimo, mal chegando para um fim do mês feliz. Mas o desgraçado ainda se aguentava, cheio de adjectivos tristes e terminais, e nós gostávamos dele, como gostamos do amigo que por vezes (raramente) nos surpreende ao oferecer o jantar.