Opinião

A desgraça dos alquimistas

A desgraça dos alquimistas

Entristece-me pensar nos alquimistas por causa dos aceleradores de partículas. Esses que enterrámos dando uma volta grande por baixo de uns quantos países. Máquinas imensas, desconhecidas dos antigos alquimistas, que mexiam em química básica - desgraçados, a tentarem a transmutação dos metais, a criação dos elixires e outros afins com ervinhas e pós que hoje usamos na culinária.

Eles bem se esforçaram por parir nos alambiques uma Pedra Filosofal que daria a basezinha da esperança humana: o ouro e a vida eterna. Viver para sempre sem ter dinheiro não é esforço que valha a pena. Eram homens velhos de barba, e também - para a paridade - mulheres velhas de barba incapazes de conter a imaginação. Esta transbordava-lhes junto com a ambição, que desejar ouro onde ele não existe é coisa de Midas. E este rei, ficou escrito, não sabia onde pôr as mãos. Assim iludidos, lá foram gastando a pouca vida eterna que tinham, o sonho a transmutar-se em frustração.

Em parte, entristece-me pensar neles porque hoje nos falta a loucura. Andei aí a espreitar as janelas dos rés-do-chão e nunca encontrei um louco velho, ou uma velha louca (ver acima a paridade), que se esbanjasse para cima de ampolas a julgar que conseguira, desta é que era, transformar plástico em ouro.

Mas sobretudo metem-me pena os alquimistas porque não sabiam, e hoje sabemos, que o ouro mais parece ovni: explodiram as supernovas, polvilhando o ouro recém-criado, e uns anos depois este concentrou-se em novos astros. Como o planeta em que vivemos. Nem sabiam eles que todo o ouro recolhido pelo bicho de escavar que somos daria apenas para encher três piscinas olímpicas. Quem fez as contas, não sei. Sou mau de contas mas bom de contar: três piscinas é uma metáfora do tamanho suficiente.

Dizia eu: coitados dos alquimistas, que andaram pela Idade Média com o ânimo de serem eles a conseguir ouro através de ervas, mezinhas, alambiques e ampolas. Tristes, que viviam só da esperança.

Nós hoje não precisamos de esperança, nem de sermos homens velhos ou velhas mulheres, para transmutarmos o ouro. Já estamos para lá da eureka. Sabemos cientificamente produzir ouro, isso não nos espanta.

Não se chama alquimia, chama-se ciência e faz-se assim: liga-se um acelerador de partículas para imitar as reacções nucleares obrigando os átomos a chocarem uns contra os outros, mascarados de supernova de trazer no bolso.

PUB

Contemplem as nossas obras, ó velhos alquimistas, e desesperem!

Átomo contra átomo, as nossas máquinas criam o ouro. Produzir uma pepita através deste processo demora apenas - ler por extenso, sff - treze vírgula oito mil milhões de anos. A idade do próprio Universo. De novo ignoro quem fez as contas. Decerto alguém solidário com a desgraça dos antigos alquimistas.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Escritor

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG