Opinião

A minha avó nua

Vivi três anos com a minha avó numa casa em que as ventoinhas do Malawi, os móveis não sei quê, os biombos e os quadros, tantos como as paredes, não chegavam para esconder alguém nu.

A minha avó, então já para cima de noventa, íntima de muita gente do século XIX (e essa gente íntima de outros tantos do século XVIII), só não era lendária - um ser do fundo do tempo - porque eu a amava. E eu, nascido no fim do século XX, íntimo de ninguém do século XIX (e de menos ninguém de outro século), só não era lendário - um ser da franja do tempo - porque a minha avó me amava.

De modo que nos entendíamos, nos discutíamos, tentávamos encontrar datas em comum. Mas as coisas da convivência por vezes tratavam de nos atrapalhar, mostravam as nossas distâncias.

Como as duas ocasiões em que a vi nua.

A primeira era de noite. Ouvi no hall um afastar de cabides quais ossos uns contra os outros, fui espreitar: eis a minha avó nua em busca de uma camisa de noite. Emudeci-me todo, recuei. E a minha avó, que não era o que se esperava de uma mulher rumo aos cem anos, correu para o quarto e bateu com a porta. Foi uma longuíssima corrida breve.

A segunda vez em que a encontrei nua, estava vestida. Os móveis, os quadros e os biombos não bastavam, de facto, para a esconder; a casa conspirava. Encontrei-a no sofá da sala julgando-se só. Ela, que fora alta, curvava-se pequena sobre uma fotografia. Parecia feita em nó, feita em tristeza, sobre a imagem a preto e branco de um homem que era um rapaz. E assim abraçava o filho que nos anos oitenta, aos trinta e três anos, se metera num carro e nele morrera a caminho de Azeitão.

Eu parado à entrada da sala, mudo e com pudor por ver uma mãe a nu com a saudade. Antes de a minha avó devolver a fotografia à mesa ao lado do sofá, passou a ponta dos dedos pela cara do filho e tossiu ligeiramente, que era o seu jeito de chorar.

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Nunca fui filho da minha avó nem ela minha mãe. Mas garanto que senti na cara os dedos longos que passaram pela fotografia. Quando por fim entrei na sala, sósia insuficiente do tio Miguel, a minha avó endireitou-se, sorriu e disse "O menino está mais alto?", pergunta que sempre repetia para contrariar o silêncio. "Deixei de crescer, avó, já não passo disto".

Corre uma petição promovida pela Acreditar (www.peticaolutoparental.com), da qual sou um dos primeiros subscritores, que pretende aumentar os dias de luto por um filho, dos actuais cinco para vinte. Estou certo da inteira justiça desta causa - e para tal não teria sido preciso assistir ao luto da minha avó.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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