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Opinião

Coordenadas para viajantes do tempo

Coordenadas para viajantes do tempo

Se sentires o ar rarefeito e o bafo de um T-Rex que diz "Vou comer-te", viajaste de mais. Foge daí, que os T-Rex têm bracinhos ridículos. Temporiza os botões da passarola para diante. Já vês no horizonte umas quantas pessoas. Montam cavalos e aprenderam a dominar o ferro? Foge daí, que essa gente é mais mortífera do que os dinossauros.

A máquina encravou com a pressa de escapar, o botão do passado ficou no ponto crítico - e eis-te e flutuar no limbo que dista entre o Big Bang e as primeiras estrelas. Foge daí, que não é suposto sabermos disso excepto por suposição científica. Puseste o prego a fundo, passou a formação dos primeiros planetas, a Terra uniu-se, levou com uns meteoritos, suou água, fez o caldo primordial e deu a vida. Lembram girinos, os organismos que vês a teus pés? Foge daí, que te arriscas a matar-nos os avós com a sola do sapato.

Finalmente passaste o macaco e o hominídeo, acenaste ao Neandertal e viste gente que usava o fogo para a dieta paleolítica e para ler à noite umas tabuinhas com alfabeto cuneiforme. Foge daí, que os primeiros leitores pensavam ser deuses por terem dominado a memória.

Não abuses da passarola, condu-la devagarinho para assistires calmamente aos primeiros impérios. Estás em Roma e não pertences aos patrícios? Foge daí, que o SPQR não servia a todos. À pressa, foste ter a uma praia do Brasil antes de ser Brasil e vês no oceano um monstro marinho de madeira? Foge daí, que estás entre os índios e os portugueses preparam-se para te descobrir.

Meteste demasiado a fundo e perdeste uns séculos, aterraste na Europa Central. A julgar pela magreza do povo e pela esquadra de aviões, o ano é 1942. Foge daí, que ainda te bombardeiam a passarola, ou - pior - ainda te captura e fazem do tempo o que quiserem.

Por agora, vem para cá e descansa. O teu dia teve demasiados hojes para as vinte e quatro horas do costume. Amanhã é um bom dia para visitar o futuro.

De novo calibras os botões, pões-te ao volante a vais cronometrando para um tempo civilizado. Não ligues aos minutos, concentra-te nos anos e nos meses. Paras em cheio no presente, o que não é grande surpresa, porque para ti qualquer tempo é o presente: viste dinossauros, vândalos das estepes, a cara de um imperador romano, os bombardeiros da última guerra mundial.

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Fora da máquina, no nosso tempo, encontras pessoas com dedos cozidos a ecrãs e olhos reflectindo o brilho dos telemóveis. Vês que formam tribos e combatem, não há quem dialogue fora da trincheira. Opinam, logo existem. A um canto, os moderados perderam a voz. Foge daqui, que a falta de sensatez é um lugar hostil.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Escritor

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