Opinião

Coração de cão, coração de porco

Coração de cão, coração de porco

Lembro-me confusamente, como se não tivesse sido ontem, apesar de os acontecimentos marcantes serem sempre ontem: eu tinha quatro anos, o meu pai ia ser mexido num sítio vital onde confluíam o sangue e a emoção - esse sítio, feito de músculo que fraquejava, estava cada vez menos pulsante.

De acordo com a tradição, aí está depositada a melhor parte do ser. Claro que hoje se sabe que a melhor parte reside no cérebro. Ainda no outro dia, ao tirar o capacete de mota, pensei em como é curioso que o Universo caiba inteiro naquela volumetria. No meu caso, um universo de tamanho M.

Mas a operação do meu pai foi no sítio tradicional do melhor de nós, o coração. Lembro-me vaga, confusamente, ele engolido pelo hospital, e daí a dias ele regurgitado, ao que tudo indicava vivo e em casa para ficar. E com uma novidade: "Afonso, tenho um coração novo, trocaram-mo por um de cão".

Coração de cão em corpo de pai era uma coisa de tanta fantasia, tão fantástica, que só podia ser verdade. Um absurdo assim apenas funciona na vida, fora da ficção. Num livro, a personagem principal nunca poderia morrer na queda de uma varanda. Seria inverosímil. Mas na vida, que é escrita por mão louca e bela e inconsequente, quantas pessoas - personagens principais delas mesmas - não morreram na queda de uma varanda?

Para ser digno do meu pai, o coração só podia ser de rafeiro - cães cuja raça apenas a eles lhes pertence. Pai rafeiro com coração de cão ninguém tinha, convenci-me aos quatro anos. E convencido fiquei até muito tarde, para lá do razoável, quando referi a amigos a particularidade do coração paterno. Riram-se, isso não existia. E de facto descobri que não existira: o meu pai fora operado para remover um mixoma, excrescência suja que insistia em acoplar-se ao coração. Nada mais.

Acontece que, entretanto, a ciência tratou de confirmar a minha tese sobre o absurdo só acontecer na realidade: uma equipa de médicos da Universidade de Maryland procedeu há dias a um transplante revolucionário. O sangue e as emoções de um paciente de 57 anos são agora pulsados por um coração de porco modificado geneticamente. Os entendidos dizem que a coisa talvez resulte, visto que passaram as horas mais críticas para a rejeição.

Isto para mim é o belo horroroso, algo fora do possível, tão fora, tão absurdo e maravilhoso - como se o próprio porco-dador estendesse a mão para nos salvar de morrermos afogados -, que só pode ser real. Aconteceu.

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Haverá neste momento um outro filho a dizer aos amigos que o pai tem um coração de animal. E estes que se calem, não se riam, porque é uma bacorada contrariar os prodígios da realidade.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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