Ansiedade crónica

Crónica à la António Lobo Antunes

Crónica à la António Lobo Antunes

Eu sozinho com a mão a correr a página, ela teimosa. Parece que me encontrei no álbum de fotografias de quando eu era o menino, e ao menino dizia a avó

- Se continuar assim, conte com a solidão

e eu nada, que um rapaz de seis anos deve fazer-se de pequeno frente a uma avó que se agiganta. Isto apesar de a avó, estou certo, ser na verdade muito escondida, muito velha

(sempre a lembrei assim)

e só uma vez me ter dito, séria como a sombra da acácia ao fim do dia, que eu se continuasse assim

- Conte com a solidão

de modo que hoje, à custa de a lembrar, está mais velha, mais escondida, e eu mais novo, mais miúdo engalanado contra o tempo que me pesa na mão quando escrevo. Vejam o que foi de mim porque continuei.

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Hoje, este rapaz de olho azul da idade da avó escreve para falar com as vozes, elas à má fila, distantes também, aconselhando a

- Isto e aquilo

Escreve para negociar com ecos de quando era preciso pôr as costas direitas ao miúdo às cegas que sou. Agora que ando direito e que a mão por mais que a force ainda corre a página, continuo rapaz e já só quero que alguém me diga

- O menino se continuar assim

embora no meu álbum de infância, pior do que a escrita, fossem as sopas que me davam como coisa boa, a mim e aos manos, todos eles mais bonitos, mais limpinhos no pijama - todos eles ao pé de quem dava vergonha ser criança. Hoje não tenho vergonha de dizer que dava vergonha. Eu só escrevo para pagar a dívida, pode ser, a mão que caminha é para que se afastem os cobradores de fraque que por aqui andam.

Existo eu e quem me acompanha quando deixo; nós guardados no jardim pelo olhar da avó, que tanto se irritava e nos dizia

- Tenham paciência, isto já é de mais

como de cócoras descia da velhice e nos abraçava. Um abraço maior do que qualquer porra triste do Pessoa, não mo negava. Não mo nega ainda.

Mas a dívida de escrever continua pegada a mim, fujo dela ao ritmo da mão mas cabriolo e tropeço. Tropeço sempre, está à vista como um bibe sujo. Não tenho jeito nenhum para balanços, para dinheiros, para quem deve o quê a quem, mas tenho jeito para miúdo no fundo do jardim e a avó me dizer

- Se continuar assim, conte com a solidão.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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