Opinião

Crónica à la Miguel Esteves Cardoso

Crónica à la Miguel Esteves Cardoso

É o cheirinho a sangue, é disso que eles gostam. Eu já conto, antes confirmo que os amigos são para as ocasiões - e os amantes também. É o mesmo que dizer que a Maria João é para todas as ocasiões.

Ainda no outro dia voltávamos de jantar num restaurante cuja cozinheira com nada faz de tudo (e com tanta generosidade, como se o pão lhe saísse das mãos), quando a brisa fria da serra nos trouxe o pêlo nas ventas deste paraíso onde vivemos.

Primeiro, espirrei. Depois, transpirei.

E chegado a casa, bem escondido na cama como se fosse pequenino, já não sabia o que era suor, o que era espirro. A Maria João, que nestes momentos faz de dura comigo, disse-me: «Mau, isso já passa.»

Mas isso não passou, e no dia seguinte isso era um febrão. Daqueles. Não digo tinha temperatura porque ter temperatura comigo é ter febre. Mas tinha de facto muita febre. Como qualquer homem valente, eu chorava por consolo. A Maria João, coitada, agora não me dizia que isso passava.

Umas horas nisto e percebemos que nem a canja me safava. Estava como havia de ir. Valia-me a Maria João, mil vezes a Maria João, que tanto era canja a fumegar como um pano fresco na minha testa - e também uma palavra mais rija, que sempre é precisa para os doentes inconformados.

Ao pé da cama, o gato olhava-me desconfiado, a pensar: «Este aqui ou me engana ou não dura muito.» Mas o verdadeiro indício foi mais grave. Não estão bem a ver, por isso eu mostro: à janela do nosso quarto há uma árvore. Estava eu aflito na contabilidade dos males do corpo quando um grande corvo pousou num ramo mesmo em frente da janela e fez olho guloso para mim. Não grasnou, que era o que mais faltava, mas bem lhe apeteceu, excitado pelo cheirinho a sangue. É disso que eles gostam.

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Nisto entra a Maria João, dá um berro ao bicho, deixa bem claro que hoje não, e o sacana fúnebre põe-se a voar para outras bandas. Talvez para a janela da cozinheira que com nada fez de tudo, até um valente desarranjo intestinal.

Pois é, os amantes são para as ocasiões. E a Maria João é para todas as ocasiões: para espantar um corvo e para espantar uma gastroenterite. Haverá mais bela ocasião, para quem ama, do que afugentar a morte?

*Escritor

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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