Opinião

Eu tenho amigos

Eu tenho amigos - chorai por eles - que perderam a família. Ainda assim, não os vejo inconsoláveis nem tristes nem de luto. Foi-se-lhes a família, mas ganharam uma famelga, que é decerto um conjunto de familiares em estado de melga.

Os meus amigos sem família nunca saem em grupo, o que poderia ajudá-los a lidar com os dramas da famelga. Porém - benditos sejam eles -, contam sempre com o apoio da grupeta.

Mesmo que saiam muito em grupeta, nunca beberam uma cerveja ou ouviram falar de imperais e finos e semelhantes. Preferem jolas, ocasionalmente loiras e bejecas, com as quais acompanham os morfes. No fim, bebidas as jolas e finda a patuscada, sorvem a molhanga no pão.

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Eu almoço e janto com eles, mas eles não almoçam e jantam comigo. Entre nós só há almoçaradas e jantaradas, embora não saiam caras o suficiente para granjearem tal designação. Os meus amigos costumam estar nas lonas; mas para mim é mais grave, porque estou simplesmente sem dinheiro nenhum. Eles compreendem e asseguram-me que a comezaina é baratucha.

Eu tenho amigos - penai por eles - que nunca viram o pôr-do-sol. Mas não lhes escapa a rotação da Terra trezentas e sessenta e cinco vezes por ano. Certa ocasião, garantem-me, assistiram a um ganda sunset enquanto bebiam jolas depois de terem discutido com alguém da famelga que se incompatibilizou com um membro da grupeta. E não há molhanga que me ajude a digerir tamanha falta de pôr-do-sol, embora os meus amigos digam que nesse ganda sunset fazia um solzaço.

Eu tenho amigos que não sabem o que é um jogo de tabuleiro ou um baralho de cartas. Depois de tomarem uma boa cafezada (nem é café nem é bica), pedem para irmos a uma jogatana. Eu sou péssimo ao jogo, pior ainda à jogatana - mas aceito com a certeza de que vou perder. À custa da derrota, as jolas seguintes são sempre por minha conta. Haverá maior prova de amizade?

Eu tenho amigos que gostam de futebol. Do tema, apenas sei que existe um Messi e um Ronaldo, pelo que não estranho muitos deles serem do Benfas, o melhor clube de um país chamado Tugão, terra aparentada de Portugal.

No Tugão vivem os tugas, que são os conhecidos dos meus amigos. Depreende-se que conhecido do meu amigo meu conhecido é. Mas os meus amigos, estranhamente, só conhecem o tuga quando é de ginjeira.

A alguns amigos acontecem equívocos terríveis. Uns esperam ter um filho, mas, depois de uma ida à maternidade, anunciam que de lá trouxeram um filhote. Outros esperam ter um animal de estimação, mas, depois de uma ida ao canil, anunciam que de lá trouxeram um filho.

Os meus amigos, fartos de mim - que não tenho famelga ou grupeta ou filhotes, não gosto de jolas e molhangas e não sou do Benfas ou vivo no Tugão -, acusam-me de ser um corta-mocas do pior. Discordo. Eu sou é um chato do caraças.

*Escritor

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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