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Opinião

Gabinete de curiosidades

Gabinete de curiosidades

Há uns dias, o Museu da Língua Portuguesa - felizmente renascido das cinzas, será reinaugurado este fim-de-semana - publicou nas redes sociais um texto em que incentivava a que o visitassem "todos, todas e todes". Se um dia for a São Paulo, lá estarei de novo. Mas, antes, uma ou duas coisas.

Fora da clique bem-pensante que melhor respira nas redes sociais, a esmagadora maioria dos falantes não sabe o que é "todes", mas eu explico: trata-se de linguagem inclusiva, uma espécie de conceito chave-na-mão nascido nos movimentos sociais e académicos de modo a integrar quem não se identifica como mulher ou homem.

E é outra coisa: uma corrupção disparatada da língua que não serve a ninguém. Falta-lhe pragmatismo e pertinência - e sobretudo falta-lhe outro elemento que até é importante para qualquer língua (ao latim, por exemplo, por estes dias, também lhe falta o mesmo): os falantes, o povo. Fora da tal clique, ninguém fala ou escreve assim. E mesmo a esses se lhes deve enrolar a língua perante tanta contradição.

Outros como eu denunciaram o disparate. De imediato, fomos rotulados como aqueles que querem deter o progresso, travar os novos usos da língua. Como se a clique representasse um imenso povo que se decidiu pela inclusão ao inventar e adoptar o "todes" e seus afins.

Quando não se concorda com a deriva laboratorial inclusiva que pretendem impor à língua, muito facilmente se é apelidado de opressor, retrógrado e outros que tais. Acusado de contrariar os bons sentimentos, as boas intenções de quem apenas pretende não ofender, incluir, salvaguardar - etecetera.

Que jogo ingrato de jogar. Não se pode falar de gramática sem falar de sentimentos? Não se pode dizer, com neutralidade e sensatez, que "todes" não só é uma má solução para um problema que não existe, como na verdade a grande maioria dos falantes ou não sabe o que é ou a rejeita?

Concordo quando tentam atirar para cima de mim que a língua é do povo, e concordo também quando dizem que é preciso louvar as suas inúmeras variantes, usos e corruptelas. Porém, embora a clique tenha o povo na boca, neste caso falta-lhe o mais importante, que é a boca do povo. Simplesmente, não são os pontas-de-lança dos falantes nem representam um novo uso espontâneo da língua.

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Cada um se entrega ao que acha melhor, não tenho nada contra isso - considero estes entretenimentos com a língua mais ou menos inofensivos, embora me espantem -; já o único museu dedicado à língua portuguesa promover algo que nada tem que ver com a língua portuguesa é outra coisa. É transformar um museu ainda agora renascido num gabinete de curiosidades.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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