Opinião

Ganhei o Euromilhões

De toda a fantasia - essa parente enjeitada do sonho -, a de ganhar muitos milhões é talvez a mais comum. A coisa começa com a imagem de um euro, que podemos sentir na palma da mão, e do euro se fazem euros, e dos euros se fazem linhas bancárias intermináveis, extractos maravilhosos, costura monetária que suturaria os rasgões da vida. Nunca tantos zeros, nada de nada acrescido a nada, se nos enrolaram tão perfeitamente à volta do ânimo.

Deixa-nos sem ar, a fantasia. Metidos nela, pensamos realmente que sim, vejam, ganhei o Euromilhões: tudo o que sonhei, o que por mim sonharam, tudo o que quero, passou de intangível a tangível, habita invisível dentro de mim. Varia para cada pessoa, mas estatisticamente tudo o que quero é carro, casa, férias - felicidade. O aperto mais e mais intenso da fantasia está muito de acordo com Platão, já que a batelada de dinheiro, talvez o arquétipo absoluto, nos aproxima do mundo dos ideais, nos encaminha para a perfeição.

Talvez a fantasia nos pareça válida porque a comprámos. Não gastámos o nosso euro pela possibilidade de este se multiplicar, mas pelos poucos dias, horas, em que nos imaginámos possíveis sem fim, em que fomos a melhor versão de nós mesmos. Sem nos apercebermos, tropeçámos numa espiral de comprazimento, num jogo de inversos que só se detém com a desilusão das terças e sextas.

O boletim é na verdade um ingresso. E barato.

Eu nunca aposto porque decidi, há já muito tempo, que ganharia se jogasse. E decidi também que não me poderia acontecer pior azar: fundaria uma editora, negócio de queimar milhões; compraria um Ferrari, melhor carro para acidentar e morrer; arranjaria novos amigos, que expulsariam os velhos; nunca mais saberia por que motivação esta ou aquela se encantariam; e assim chegaria à pior versão de mim mesmo, raquítico perante um ideal a que antes do dinheiro ainda conseguia aspirar.

Quer dizer que a minha fantasia - o perfeito convencimento de que ganho o Euromilhões - é muito pragmática. Talvez possamos mudar os dicionários para que "fantasia pragmática" venha como descrição de paradoxo. Vivo o paradoxo de imaginar vividamente que, não jogando, fujo à desgraça de ser euromilionário. Mas eu sei que a maioria das pessoas prefere a fantasia clássica, a que implica ingresso e o entusiasmo crescente do quase quase.

Assim sendo, eis a chave vencedora do próximo sorteio: 2 - 17 - 25 - 14 - 50, estrelas 1 e 9. Vão por vossa conta e risco.

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o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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