Opinião

Levante-se o Gervásio

Levante-se o Gervásio

Sabem como é: alguns macacos podem ser infinitos. Vai-se ao jardim zoológico (de noite e com uma chave-mestra), abre-se a jaula dos chimpanzés e chama-se o Gervásio.

Ele responde pelo nome e aceita ser levado pela mão. É um macaco amestrado. Sei que macaco não significa chimpanzé, mas não se levantem as vozes porque o Gervásio tem classe - é-lhe indiferente a ofensa.

Depois põe-se o Gervásio num quarto com vista; à frente da janela, uma secretária. Dantes dava-se-lhe um maço de tabaco para soltar a mente, agora já não se pode dar cigarros a macacos. E então é muito simples: senta-se o Gervásio à secretária, onde está um computador aberto numa página em branco do Word.

O Gervásio é macaco suficientemente instruído para saber que fica bem no CV dominar o Excel e o Word. Começa a teclar. Antes de sairmos e fecharmos a porta, não esquecer de dar ao Gervásio o resto da eternidade.

Quando a eternidade acabar, estipula o Teorema do Macaco Infinito, o Gervásio - durante algumas eras mais brando, noutras com raiva da página, durante certos séculos pleno de inspiração - terá teclado aleatoriamente as obras completas de Shakespeare. Se preferirem, as obras completas do Padre António Vieira, que são bastante mais extensas e algo mais barrocas. Mas o Gervásio consegue.

Com a eternidade à disposição, até um macaco tecla obras-primas, visto que a probabilidade de acertar na ordem correcta das palavras é muitíssimo baixa, mas não igual a zero.

Não peço tanto. Primeiro, dispenso a eternidade. Segundo, embora esteja bem amestrado, não venho do jardim zoológico. Terceiro, desculpe-me o Gervásio, sempre estou um furo acima dele, se até metáforas com símios entendo. E, por último, sei que nunca escreverei, aleatoriamente ou não, algo que se pareça com Shakespeare.

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Eu no fundo só quero mais um livro que se pareça comigo, e que esse livro (por alguma razão probabilística que poderia ser apresentada num teorema) venha a ser realmente bom. As chances dizem-me que uma obra assim será possível nos cinquenta anos que a esperança média de vida ainda me dá. Uma eternidade finita.

Levante-se o Gervásio, a quem agradeço a secretária, o computador e a vista. Faço "delete" à obra que o bicho levou uma infinidade a escrever e sento-me perante a página branca. Agora é a minha vez de ser macaco.

*Escritor

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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