Ansiedade crónica

Nome de discoteca

Hoje a esperança tem nome de discoteca. Neste ano que vai connosco de pandemia, esquecemo-nos das músicas que aí se tocavam, estamos demasiado cheios de uma única música, demasiado cheios de fado, tanto que uma vez por outra estranhamos que o corpo ainda se mexa em gestos de dança. É o desábito.

Conheço poucos nomes de discotecas, Lux, Boîte, Urban, Eskada, EKA Palace, e sempre me pareceu que isso de nome de discoteca era mais crachá do que outra coisa. Aquilo que tu levas ao peito para te identificar: nunca irias ao Lux porque é malta da moda, foste uma vez ao Boîte mas deste com gente da Foz, o EKA Palace é o melhor dos mundos, lá rolas com a freakalhada. Descrevias as discotecas que se enchem de velhos (gente que, por definição, nasceu antes de ti), as que se abarrotam de novos, as que comportam cenas muito pesadas. Falavas delas mas falavas de ti. E também davas o teu horário, lembras-te?, a que horas picavas o ponto para entrar e de novo o picavas para sair. Como a dizer quem eras. Isto é quase uma questão de bilhete de identidade (melhor do que "quase uma questão de cartão de cidadão").

E também era bom assunto de conversa, isso das discotecas no tempo em que estavam abertas: um denominador quase tão comum como a conversa de futebol. Ah, também vais a essa? Eu por mim gosto, mas prefiro aquela. Nunca me meteria num sítio desses. Um dia vais comigo e mostro-te como é.

Sei: vê-se que mal frequentava discotecas. Havia algo na junção dos corpos que sempre me evocou pestes, peçonhas; entre uns e outros, nisso de dançar, a possibilidade de várias infecções. Mas ultimamente tenho pensado nelas. Já vai connosco um ano de pandemia, e estou a ponto de precisar de uma discoteca.

Ouvi dizer que é lá que se faz a catarse, a ver se quanto mais nos mexemos - ritmadamente os outros, sem ritmo eu -, quanto mais nos amalgamamos entre quatro paredes passando copos de mão em mão, mais acreditamos que voltámos à vida comum. Por isso, discoteca leva nome de esperança.

Tenho uma amiga que no meio da dança encontra os desconhecidos mais vulneráveis e, saramente, saríssimamente (ela chama-se Sara), lhes põe o braço sobre o ombro. E pergunta-lhes pela vida. Não tarda a noite, sem os largar, já ela arrecadou os seus protegidos, que aqui é outra palavra para os seus cromos.

Pois, Sara, põe lá o braço sobre o meu ombro e chama-me cromo. É da maneira que sei que a pandemia acabou, e a isso estou disposto a dançar.

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Escritor

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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