Opinião

O novo modelo de iPad

No outro dia pus-me a conversar com um rapaz de cinco anos. Um exercício árduo de paciência, boa vontade e tolerância para qualquer criança. É difícil para as crianças aturarem os adultos, principalmente os que tentam doutriná-las.

O miúdo ouvia-me assim: "Sabes que as coisas coisadas coisaram coisadamente? Um rapaz como tu não devia coisar as coisinhas quando as coisísticas coisam as coisas".

Eu percebo que haja para as crianças coisas mais importantes do que as coisas que são importantes para elas, e desisto de as incomodar. Além disso, envergonha-me confundir desenhos de jibóias a engolir elefantes com desenhos de chapéus. Acabo invariavelmente a jogar Sonic Dash ou a ver "Grizzy e os Lemmings". E a pensar que os adultos realmente coisam coisas coisásticas.

Acontece que este rapaz de cinco anos, filho de amigos meus, pousou o telemóvel quando lhe perguntei pela escola que aí vinha, no futuro inconcebível de Setembro, altura em que ele aprenderá a ler. Em vez de retomar o telemóvel ou de se pôr com ares de quem só ouvia coisas vagas nas coisas importantes que eu dizia, mostrou-se disposto a aturar-me. Avancei: "Vais aprender a ler... Eu adorava não saber para aprender de novo! Queres trocar comigo?"

Não queria, prova de maturidade e prudência. Continuou a ouvir-me como quem sabe que os desenhos mostram jibóias a digerir elefantes mas tolera os que pensam tratar-se de chapéus. Porém, cuidado para não se pôr esses chapéus, porque os elefantes pesam to-ne-la-das, que é o equivalente a demasiados quilos.

Incentivado pela condescendência do miúdo e satisfeito por ter o palco dele, peguei num livro e abri-lho à frente dos olhos.

"O que vês aqui?"

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"Linhas...", disse-me ele, prestes a refugiar-se no telemóvel.

"Estás muito enganado, seu burro! Quando aprenderes a ler, isto deixa de ser linhas. Vais ver aventuras, montanhas, pessoas a conversar e a lutar, o passado e o futuro, vais ver monstros e animais da savana. Vais ver tudo o que está no Mundo".

Ele debatia-se entre assistir à minha loucura - que agora já devia soar mesmo a coisas coisísticas que coisam sem sentido -, e responder ao apelo do telemóvel; mas por fim decidiu pegar no livro. "É verdade?", perguntou-me. Era verdade, quando aprendesse a ler: monstros, pessoas, aventuras.

Entusiasmado, o miúdo deu um salto e foi dizer à mãe que o livro, ninguém lho explicara antes!, era o novo modelo de iPad.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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