Opinião

O sexo dos pandas

O Mundo descansa, agora que os pandas reconquistaram o apetite sexual. Mas eu não esqueço como foi. De tanto comerem bambu em cativeiro, incharam. De tanto incharem, desmotivaram. Desistiram da pândega, esses grandes ursos. Aceito que as fêmeas prescindissem mais facilmente de comportar o fardo. Já os machos afrouxarem, sem vontade delas, é coisa de mistério.

Os biólogos chineses reuniram um comité cuja solução foi pornográfica. Mas nem ao serem obrigados a ver acção de panda os pandas se motivaram. Durante alguns anos, fui preparando uma tirada contundente para quando lesse a notícia de que o último espécime se extinguira, dera o derradeiro suspiro não sexual: "Tens o que mereces!"

Mas até os pandas perceberam que isto de nos metermos uns com os outros é bem divertido. Descobriu-se que começaram a cantar uma melodia gemida que os punha a fim. E se ambos gostavam da serenata, continuavam-na abraçados e chegavam a outros acordes. Salvaram-se da extinção pelo simples acto de amar.

Acontece que agora os pandas impotentes somos nós.

Vários estudos, variadíssimas notícias, vão dizendo que os jovens perderam a motivação sexual. Suponho que prefiram ficar solitários nas suas jaulas a correrem o risco da descoberta. Sabem tudo antes de saberem que nada sabem. Recusam a vulnerabilidade, preferem a segurança de mastigarem o bambu sozinhos. A gratificação, encontram-na no imediato sem a possibilidade de repúdio, o qual temem acima de tudo.

Os especialistas, que identificaram uma tendência decrescente desde 2000, falam da pressão de conciliar o trabalho com a vida íntima, a insegurança dos baixos rendimentos, a opressão digital. Essa dor geral da existência, diria eu, que gosto de usar termos científicos.

Assim se desinteressam uns dos outros, perdendo a misteriosa delícia do erotismo para o tudo à tua disposição do "swipe left & right". Vão-se empandeirando, e prescindem do ganho que vem com a incerteza da entrega. Essa alegria geral da existência, diria eu, que gosto de usar termos literários.

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Alguém que os leve a ver os pandas, alguém lhes ensine os benefícios das serenatas. Assim umbigados, qualquer dia tais jovens extinguem-se. Eu aguardo essa notícia, a do último suspiro não sexual do último jovem, para largar a frase feita: "Tens o que mereces!", e acrescentar de improviso: "Até os pandas aprenderam a cantar".

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Escritor

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