Opinião

Prólogo

É uma coisa boa o Mundo ter sido inventado, porque podemos passear nele. Saio de casa a pensar no privilégio de ter solo. Se o Mundo não tivesse sido inventado, seríamos obrigados a caminhar no vazio - e o vazio, concordamos, não é um lugar cheio de coisas interessantes.

Já andei três quilómetros na cidade que namoro (a que é menina e moça) quando me inquieto com as tais coisas que interessam. Afirmo que a curiosidade é o melhor dos venenos: não mata o gato mas nunca sacia, deixa-nos sempre em busca de mais. Certos dias, preciso de saber a altura exacta de Einstein. Quanto à estatura, todos sabemos que se mede por E = mc2 , e mais elevado que isto ninguém chega. Outros dias, pergunto-me se o nariz de Cleópatra estaria mais próximo, no tempo, das pirâmides de Gizé ou da Segunda Guerra Mundial. Sendo tão grande, o nariz, é de desconfiar até aonde ele chegaria.

A meio do caminho (o ponto em que retorno à casa de partida), acontece-me pensar se continuará certeiro o andamento da Terra à volta do Sol, e depois ocorre-me que seria uma calamidade a Terra ter pretensões literárias. Imagino-a tentando dar a volta ao Sol em 80 dias. E depois - mais introspectivamente, que eu sou sério -, fico a olhar para as grandes deambulações da política, sendo a de Zita Seabra a mais ampla, e a medir as preocupações da cena cultural. Um-por-cento não é pedir esmola. Porém, logo chego às descargas eléctricas das bobinas de Tesla, à origem geográfica das leguminosas e aos fenómenos de refracção da luz. A segunda lei da termodinâmica também se aplica ao meu pensamento: eu avisei que era uma coisa boa o Mundo ter sido inventado.

Estou quase de regresso mas agora de passo mais largo porque, já cantava José Mário Branco, há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber. Inquieto por entender que a ansiedade é uma caixa demasiado pequena para o conteúdo do cérebro, anseiam-me estas aparadelas de texto a cada quarta-feira.

Antes de chegar à porta de casa, tropeço em papel de jornal e as minhas ansiedades caem neste rectângulo de 20x17 cm. Estou quase a declarar o "Fail" quando olho para o que fiz - e parecem-me bem as ansiedades assim metidas numa caixa do tamanho certo. A partir de agora, tropeço aqui todas as semanas. Isto não é terapia de gente inquieta, é texto de ansiedade crónica.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Escritor

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