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Opinião

Ronaldo, o semideus

Eu não percebo nada de futebol. Um dia, nos anúncios que antecedem os filmes nas salas de cinema, deparei-me com um jogador baixo, bastante compacto, que sustentava no ar uma bola com facilidade. Tinha jeito para aquilo, pareceu-me. Quis saber quem era. Riram-se de mim. Era o Messi.

Mas percebo alguma coisa de mitologia clássica. Li uns livros, cheguei a traduzir uns textos do grego antigo, aos 17 anos gostava de pronunciar kalokagathia.

Se os gregos, no tempo em que os aedos cantavam as novas dos deuses, tivessem visto um suposto mortal atirar um pedaço de tecido para o chão e este se transformasse em ouro, decerto daí em diante acrescentariam uma canção às lendas. Soubessem que também era capaz de voar entre os adversários sem socorro de Pégaso, talvez esse homem viesse a substituir Aquiles, com quem inclusive se assemelhava no humor irascível.

Pois esse semideus é português, descende de Ulisses que fundou Lisboa, e é arraçado de Viriato na resistência e de romano na eficácia. A mãe conhecemo-la, é humana como nós, mas chamamo-la de Coragem porque quem lida com os deuses merece cognome. Imagino que M. Coragem um dia tenha subido ao Olimpo, de onde voltou depois de um one-night stand prodigioso.

Os últimos versos sobre Ronaldo cantaram-nos há umas semanas os jornais: a braçadeira que Ronaldo atirou para o chão num ímpeto de raiva por uma qualquer injustiça em campo - os seres mitológicos sempre foram dados a infantilidades - gerou 64 mil euros para o tratamento de uma criança doente. Mal imaginariam os antigos que a fúria de um semideus seria a cura de um doente.

Mas os gregos sabiam que sobre os homens, mesmo que fossem quase imortais, pendiam sempre as moiras. As três manas sádicas divertiam-se a puxar lentamente o fio ao carretel da vida. Os dedos, que eu imagino esquelécticos, agarravam a tesoura que cortaria a vida de acordo com as leis da natureza.

Se os gregos tivessem conhecido Cristiano Ronaldo, cuja divindade depende do bem finito e traiçoeiro que é a força física, tão pronta a acabar-se com o tempo (e em campo os anos encurtam), diriam à boca miúda nas ruas, na ágora e no templo que as moiras se preparavam para um grande festim. De certa forma agradados pela tragédia próxima, quase agentes dos acontecimentos, sentir-se-iam minúscula parte da queda que se avizinhava. Mas os sádicos seriam eles, já que as moiras só usam a tesoura para executar as ordens do Destino - e não consta que gostem de futebol.

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*Escritor

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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