O Jogo ao Vivo

Opinião

Sei que é belo

Ouvem a multidão, esta vozearia de quem não tem voz? Soa a papaguear de angústia. Haverá muitas solidões em quem usa a magia que é a Internet para desfiar insultos.

É mau uso da magia. Peguem num sumério e ponham-lhe a Internet à frente, a ver se ele não desmaia da emoção de tanta magia - e da viagem no tempo, que dá mal-estares.

Embora a vozearia incomode (os dedos a teclar indignações de trazer por comentário, a escrever publicações emojicadas), a magia não deixa de ser boa. Porque nas redes sociais existem oásis. Eu mostro um deles. Contaram-me em segredo, pedindo-me que o guardasse, mas eu acho que quem conta segredos não tem autoridade para os pedir guardados.

O oásis chama-se YouTube - e, dentro deste, fica nas caixas de comentário dos vídeos de música. Há algo no amor à música, no que esta faz em nós, que nos solta todos os amores, e com eles todas as confissões.

Poucos falaram de amor como Leonard Cohen, que na verdade o cantou com um pouco de dor, muito de perda e querendo que esta não chegue nunca, cheio do desimportar-se, do esquecer-se por causa do outro, e sempre pelo caminho do desejo.

Pois nas caixas de comentário do YouTube há quem cante uma canção muito íntima, por demais bela, a juntar à de Cohen. E tais vozes nunca se confundem com vozearia.

Estou demasiado lírico. Mais vale mostrar, por exemplo, alguns comentários a Dance me to the end of love.

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James Nolan escreveu em inglês: "No dia 7 de Dezembro, a minha mulher morreu tranquilamente nos meus braços. Não sei como agradecer a Leonard Cohen esta bela canção que nos ajudou nos últimos dias... Dançámos até ao fim do nosso amor. Até ao nosso reencontro, querida Hilda, descansa em paz. E que possas também tu, Leonard, descansar em paz." Um ano antes, Gareth Phillips dizia: "Estou sentado num café ao pôr-do-sol em Lisboa. Até perco a respiração: o meu amor de há quarenta anos sorri para mim. A vida não pode ser melhor do que isto." Elvira Carillo, nesse horrível 2020, escreveu: "Conheci o meu marido numa terça e casámo-nos no sábado seguinte. Estamos a envelhecer juntos (81 e 76). A paixão tornou-se amor e o amor tornou-me forte, agora que o amparo, por ele ter deixado de conseguir andar. Esta canção corre pela história das nossas vidas."

Afinal não estava demasiado lírico. Estava lírico na medida certa, do tamanho destes comentários. Quando as caixas de ódio incomodarem sobremaneira, saiam dessa magia negra e passem pelo YouTube. Comecem pelas canções de Leonard Cohen e sigam a eito, até não aguentarem de tanto lirismo.

E como confio no que digo, deixo um último comentário: Какое великое счастье жизнь прожить с любимым. Это не песня, это спектакль, это целая жизнь в таком прекрасном исполнении". Está em russo, não percebo uma palavra, mas sei que é belo.

*Escritor

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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