Opinião

Tartaruga

Quando fechei os olhos, eram dois os miúdos. Quatro, cinco anos, os olhos de um branco atento. Eu estava deitado num muro sobranceiro ao terreno onde os putos jogavam.

Tinha bola e baliza, quase não tinha futebol. Um porco passou. Um cão coçava-se no dorso com os incisivos arregaçados. Seguiram-se outros porcos e outros cães nos caminhos da fome.

Em Ponta Figo, São Tomé, no único campo de futebol, as raparigas ficavam a um canto pedindo bola sem ninguém que lhas desse. Era futebol de cinquenta, de sessenta: os putos perseguiam a bola aos magotes. Atrasado do grupo ficava o rapaz das pernas enviesadas.

Ouvi "tartaruga, tartaruga", berros lançados sobre os jogadores, e abri os olhos. Os dois miúdos agora eram cinco. Olhavam para mim como para dentro de uma garrafa em cujo fundo talvez houvesse vinho da palma. "É um amigo vosso, o tartaruga?", perguntei-lhes. "Amigo é Catoninho, tartaruga é nada", disseram com peso nos erres e segurança na voz.

Fechei os olhos no quente da pedra, do sol e do almoço de peixe frito e búzio, que é o nome daqui para uma caracoleta. Os cinco miúdos comentavam o meu cabelo, para eles comprido, e o nariz, comprido também. E todo eu muito branco. "Dá-lhe com a fisga", disse um. "Pois dá", disseram outros.

Abri os olhos. Em cima de mim, recortados no cinzento da gravana cheirando a suor, os cinco miúdos se fizeram dez. Alguns segurando fisgas artesanais com elásticos de escola emaranhados pela vontade de acertar. Pedras do tamanho de berlindes.

Só fechei novamente os olhos quando os dez se concentraram no jogo lá em baixo e no rapaz das pernas à banda. Dera-lhe uma doença, não saíra de Ponta Figo, ficara assim: mais lento do que os outros no futebol. O campo pulsava de pouca bola para tanto pontapé e dos pés descalços a espalhar o pó.

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Abri os olhos ao som de "tartaruga, xé, tartaruga!". O rapaz à banda deteve-se, olhou para nós, eu e as quinze crianças que agora me rodeavam, e partiu em perseguição da bola que sempre lhe fugia. Nem fez pó ao arrancar e ninguém reparou no esforço.

As crianças berravam "tartaruga, ele é tartaruga", e eu desconfiava, quase temia quantas mais se juntariam quando fechasse de novo os olhos. E imaginei que assim em bando e excitando-se, picadas, as crianças descessem ao terreiro onde o rapazito das pernas tortas se esforçava por não ser tartaruga - e berrando mais, sim, tu és tartaruga, o agarrassem pelos membros e o despedaçassem.

*Escritor

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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