Opinião

Dia Mundial da Paz

Amanhã é o Dia Mundial da Paz. Como é hábito, a Igreja Católica divulga, a propósito, uma mensagem. Sendo a primeira do Papa Francisco, havia alguma curiosidade em conhecer o seu conteúdo, muito como resultado daquilo que se entende ser, senão uma nova postura, pelo menos um novo discurso da Igreja. Intitulada "Fraternidade, fundamento e caminho para a paz", a mensagem dá continuidade e aprofunda algumas questões que o Papa tem abordado nas suas intervenções mais recentes e que estão no âmago da Doutrina Social da Igreja (DSI).

O texto começa por uma afirmação forte ("no coração de cada homem e mulher habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar") que marca toda a mensagem. Em contraponto as passagens que poderão ser consideradas mais proclamatórias, há sempre a preocupação em lhes dar um enquadramento na realidade actual. Citando Bento XVI, refere-se que a globalização nos torna vizinhos mas não nos faz irmãos. E concretiza: as inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando a mentalidade do descartável que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados inúteis. Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero "dou para que me dês", pragmático e egoísta.

Vem, então, a parte mais substancial da mensagem (fraternidade, fundamento e caminho da paz) que recorre a dois textos essenciais da DSI. De Paulo VI, na Populorum progressio, retém-se a ideia que o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz. Da Sollicitudo rei socialis, de João Paulo II, que a paz é fruto da solidariedade. Daí decorre um tríplice dever: solidariedade que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; justiça social que requer a reformulação em termos mais correctos das relações defeituosas entre povos fortes e fracos; caridade universal que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham algo a dar e receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros. A paz, como melhor qualidade de vida, exige de todos a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, de se "perder" em benefício do próximo, em vez de o explorar. O "outro" - pessoa, povo ou nação - não pode ser visto como um instrumento, mas como um nosso semelhante, um auxílio. Citando S. Tomás de Aquino, se é lícito e mesmo necessário que o homem tenha a propriedade dos bens, quanto ao uso, porém, não os deve considerar só como próprios mas também como comuns, no sentido em que possam beneficiar não só a si próprio mas também os outros.

Mesmo que tenha havido uma redução da pobreza absoluta, o mesmo não sucede com a pobreza relativa, com a desigualdade, cujo combate requer políticas eficazes, baseadas no princípio da fraternidade, que garantam às pessoas acesso a condições que lhes dêem oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida, o seu desenvolvimento integral. A redescoberta da fraternidade na economia torna-se imperativa. As crises económicas devem levar a repensar os modelos de desenvolvimento económico e a mudar estilos de vida, recuperando as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza essenciais para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

E, por fim, a pergunta fatal: poderão, um dia, os homens e as mulheres corresponder ao anseio de fraternidade? Se, para os crentes, há um só Pai, que é Deus, tornando-os todos irmãos, a mensagem do Papa é clara: Cristo abraça todo o ser humano e deseja que ninguém se perca. Fá-lo sem oprimir, sem forçar ninguém a abrir-Lhe as portas do coração e da mente.

Se esta mensagem de tolerância, fraternidade e paz for regra, 2014 será um novo ano.

O autor escreve segundo a antiga ortografia