Opinião

Perder a paciência

1. Os portugueses estão a lidar com a pressão da crise com um misto de resignação e determinação. Na falta de alternativas credíveis, vão, umas vezes com renitência, outras por antecipação, ajustando comportamentos. São mais criteriosos no que compram, procuram poupar, agarram-se ao emprego ao ponto de suportar salários em atraso, esconjuram o fantasma do desemprego. Colectivamente, as dificuldades estimularam mecanismos de fraternidade e colocaram novos desafios às instituições vocacionadas para a solidariedade social. Cresceu o voluntariado, a disponibilidade para a partilha, mesmo (sobretudo?) entre os carenciados. Salvo um ou outro afloramento, dir-se-ia que tudo está calmo. Dir-se-ia que os portugueses estarão a ter uma atitude exemplar perante todos os condicionalismos decorrentes do processo de ajustamento. A manter-se, essa paz social é, como já foi dito e redito, um trunfo, um factor diferenciador que nos coloca próximo da Irlanda e nos afasta da Grécia.

Da mesma forma que há uma gota que faz transbordar o copo ou um pequeno aumento de tensão que rebenta a corda, projectar o futuro próximo com base no que se passou até agora é simplista e perigoso. A calma talvez seja mais aparente do que alguns pressupõem. É preciso estar muito atento aos sinais que vêm do quotidiano com o qual os partidos e as corporações, fechados nas suas representações e centrados nos seus interesses, perdem, cada vez mais, o contacto, afastando-se dos cidadãos e afastando os cidadãos da política, desta política, num prenúncio de morte deste regime. O que, por si só, não é mau, nem bom. Tudo vai depender da capacidade que a democracia tenha de se reinventar, dando espaço para novas expressões de cidadania e recentrando-se nos valores. A fronteira entre democracia, demagogia e populismo, e o que se lhe pode seguir, é perigosamente ténue. Os sinais, as dinâmicas, as suas representações, são contraditórios. Sem líderes à altura do desafio, aumenta a responsabilidade das organizações da sociedade que souberem determinar-se por causas e valores.

2. Rara é a semana em que um ou outro interesse instalado na CP não desencadeie um protesto que se reflecte no serviço prestado. Cancelamentos e atrasos passaram a rotina. O comboio é, sobretudo, utilizado por trabalhadores das classes baixa e média, potencialmente solidários com os seus colegas ferroviários. A sucessão de greves foi erodindo esse apoio. O cansaço e os prejuízos foram dando lugar à irritação e à contestação, inicialmente em surdina, envergonhada, agora cada vez mais às claras. Ninguém está disposto a pagar mais por um serviço de pior qualidade. Centradas em exclusivo nos seus interesses, incapazes de se adaptar, fora da realidade, as corporações perderam a solidariedade dos utentes e estão a criar, objectivamente, as condições para que mudanças radicais no seu estatuto, ou no das empresas em que trabalham, tenham apoio generalizado. Se um serviço público de transportes, com a ênfase em serviço, passar por aí, talvez seja um mal que vem por bem.

3. Para um liberal, um ministério da Economia é excedentário em quase tudo o que vá além da supervisão e regulação. Nestes termos, o que parecia um erro de casting (um ministro sem tarimba política e desconhecendo a realidade empresarial portuguesa) e uma teimosia arrogante (persistir na manutenção de um ministério ingovernável) pode ser uma maneira subtil de alcançar o propósito de reduzir, drasticamente, a intervenção do Estado na economia. Parece que há, mas não há. O Ministério está lá para fazer a reforma do mercado de trabalho e pouco mais. Faz que faz, mas não faz. Um exemplo: se os autarcas da Área Metropolitana do Porto se sentem desconsiderados pelo arrastar da situação na Metro, na STCP ou na APDL, obtêm como resposta que a nomeação das novas administrações não é uma prioridade. Quanto menos as empresas públicas puderem decidir, melhor. É a lógica das finanças a comandar a economia. Não convém à Junta Metropolitana do Porto? Paciência.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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