Opinião

A tortura de Sócrates

A tortura de Sócrates

Se ainda existissem dúvidas de que José Sócrates voltou à conturbada cena política nacional para ficar, elas ficariam inequivocamente desfeitas anteontem à noite. O antigo primeiro-ministro juntou perto de mil "amigos" a pretexto do lançamento do seu livro sobre a tortura em democracia, mas, como notou o próprio, é pouco provável que tal avalancha de notáveis tenha só a ver com um "súbito interesse por filosofia política". Provavelmente não tem. O que se assistiu num Museu da Eletricidade a abarrotar foi à celebração do regresso do "animal político", depois do curto exílio intelectual em Paris.

É raro ver tamanha galeria de personalidades tão influentes assim composta, por muitos que sejam os "ex" qualquer coisa que a enchiam. Lula da Silva apresentou a obra - é dele igualmente o prefácio do livro - e foi o ex-presidente do Brasil quem, ao lado do ex-presidente português, Mário Soares, exortou Sócrates a "voltar a politicar" em vez de "filosofar". E foi isso que o antigo primeiro-ministro fez. "Homem de ação" assumido, explicou a sua aventura filosófica e não perdeu a oportunidade para voltar a censurar as políticas que delapidam o Estado social, o mesmo "que libertou o indivíduo". Na plateia que o aplaudiu, sentavam-se o ex-PGR, Pinto Monteiro, o ex-presidente do Supremo, Noronha do Nascimento, o atual secretário-geral do Sistema de Informações da República, Júlio Pereira, o CEO da PT, Henrique Granadeiro, ou o ex-líder da Mota Engil Jorge Coelho. Mas não só. Parte significativa de antigos homens de mão de Sócrates também lá estava: Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão, Alberto Costa e Mário Lino. O lote de históricos do PS era igualmente invejável e de causar arrepios a António José Seguro que, previsivelmente, optou pela ausência. De Edmundo Pedro a Carlos César, Jaime Gama, Vera Jardim, António Vitorino, Ferro Rodrigues ou Manuel Alegre, todos quiseram estar presentes na rentrée travestida de Sócrates. Sabendo-se também que a bancada socialista é liderada por um seu ex-ministro, que as despesas do grupo parlamentar são feitas por um João Galamba mais próximo da linha de Sócrates do que da de Seguro ou que nas câmaras de Lisboa e Porto assumem protagonismo socialistas bem mais próximos da anterior liderança socialista, é caso para dizer que há um nervosismo justificado no Largo do Rato.

Percebe-se, de igual forma, o nervoso miudinho do PSD. Eduardo Catroga, ouvido pela Antena Um para reagir à notícia de uma alegada proposta feita por José Sócrates para que Passos Coelho tivesse sido seu vice-primeiro-ministro, defendeu que o ex-líder socialista "devia estar a ser julgado em tribunal" por "erros de gestão", até porque, para Catroga, "o PSD fez mal" em não ter aprovado o PEC 4 dando mais meses de vida ao governo do PS. Como Catroga não tem, presume-se, o dom da adivinhação, podemos sempre presumir que se os sociais--democratas tivessem dado esse tempo ao anterior executivo, talvez não tivéssemos chegado onde estamos hoje. Não sabemos. O que se sabe é que, de uma assentada, Sócrates perturba o PS e o PSD, e essa é uma irónica forma de tortura que a ferocidade do "animal" dificilmente deixaria de aproveitar. E ainda mal começou.

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG