Opinião

E agora a cavalaria para encontrar "Palito" num palheiro

E agora a cavalaria para encontrar "Palito" num palheiro

Esta é uma crónica arriscada. A possibilidade de estar desatualizada à hora a que a lê existe. Os seus pressupostos, contudo, manter-se-ão atuais. Comecemos por estes: Manuel Baltazar é suspeito de matar a tiro duas mulheres e de ferir no mesmo ataque a ex-mulher e a filha. As duas permanecem internadas. Desde a trágica ocorrência que Manuel, o "Palito", como é conhecido na aldeia de Trevões, São João da Pesqueira, anda quase a monte iludindo o gigantesco cerco montado pela PJ e pela GNR. E escrevo quase a monte porque, pelo menos por duas vezes, "Palito" deu sinais de vida nas barbas dos polícias. Uma quando apareceu armado a um amigo, a outra quando intercetou o padeiro João Pessoa para comprar pão e bolos com uma nota de 20 euros. Sem arma visível e com relato do encontro com o funcionário da panificação contado em primeira-mão pelo JN.

Enquanto isto, a PJ e a GNR apanhavam bonés.

Estamos a assistir à exibição de um inédito dispositivo na caça a um homem. E verificamos, igualmente, o lamentável resultado. "Palito", como a própria alcunha indica, é magro. Tem 59 anos. Nascido e crescido na terra, tem a vantagem de conhecer o terreno acidentado como só um caçador experiente pode conhecer. A PJ terá outros argumentos. É uma polícia - diz o povo baseado em nada - do melhor que há no Mundo. A GNR não exibirá tal gabarito. A sua reputação oscila entre o guarda barrigudo e os intrépidos jovens de colete negro à prova de bala e capacete de Kevlar nível III, com que Portugal ombreia em operações internacionais desde o Iraque a Timor, passando pelo Afeganistão. Estes - que são os nossos homens em locais remotos e exóticos como Díli, Nassíria ou Cabul - são profissionais treinados para enfrentar sem medo milícias destemidas e terroristas experimentados. Eles também estiveram em São João da Pesqueira, mas encontrar "Palito" entre serras e vinhedos é uma ciência bem mais complexa do que o simples (mas seguramente cansativo) exercitar de bíceps em ginásio e treinos contra "talibãs" nascidos na Amadora.

Depois, enviaram-se cães-polícias. A unidade cinotécnica e os seus simpáticos binómios também falharam. Como quem não tem cão, caça com gato (e a GNR não tem felinos), a Guarda enganou os pobres rafeiros de "Palito" e partiu com eles para o monte à procura do suspeito dono. Mas nada. Nada disto resultou, pelo menos até à hora de fecho desta crónica, com Manuel Baltazar.

Foi aí que a GNR resolveu recorrer às novas tecnologias e, no final da semana passada, enviou para Trevões um enxame (pequeno, é certo) de drones. Estas modernas e minúsculas aeronaves não tripuladas estavam dotadas de capacidade de voo noturno e detetores de calor na tentativa de localizar o homem no frio da noite. Talvez inspirada no atentado de Boston - o suspeito sobrevivente daquela mortandade foi apanhado num barco com o recurso a este equipamento -, a GNR tentou a sua sorte, mas "Palito" parece mais astuto do que Dzokhar Tsarnaev.

Hoje, a caça ao homem prossegue com 20 cavalos levados especialmente para Trevões de Viseu e de Lisboa. Para equídeos e guardas (os outros binómios da GNR), será a derradeira hipótese para capturar "Palito". A partir daqui, só de carro blindado. Mas para esse estado superior da caça ao homem não podemos contar com a Guarda Republicana. Muitos se lembrarão da operação desta força no Iraque com carros emprestados por Itália. Para apanhar "Palito", convenhamos, parece demasiado...

Num país em que todos questionam o papel da justiça, ainda ninguém interrogou a eficácia de uma centena de polícias (o número, obtido por fonte anónima, não é confirmado pelas corporações) na busca de um pobre - e perigoso, a provarem-se as suspeitas - homem do Portugal profundo. É caso para refletirmos.